quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Histórias de guerra e mar II - "Ele é que sabia!"

Em 1972 o D/M oceânico "Pico" apresentava sinais de envelhecimento. Despojado da maior parte da parafrenália das rocegas, com regulares avarias no sistema de passo do hélice e fragilidades no casco (em madeira, lembre-se) o navio fora relegado para funções auxiliares bem diferentes das operacionais para que fora criado. A sua guarnição incluía, como era normal nestes navios um sargento carpinteiro, só que este tinha a particularidade de sofrer de um medo atávico do mar que o fazia permanecer no seu alojamento sempre que o navio saía. Esta característica era bem conhecida e até troçada pelo pessoal.
E foi nestas condições que na primavera desse ano o navio seguiu para as "Selvagens" com uma expedição científica. Após uma semana levantou-se um repentino mau tempo que obrigou a içar ferro e regressar ao Funchal. A meio caminho e sob mar cavado surgiu na ponte o tal sargento carpinteiro com ar aterrorizado e equipado à "náufrago", colete salva-vida envergado, faca à cintura e apito ao pescoço, o que provocou algumas risadas surdas. O próprio imediato, então de quarto, não conseguiu impedir-se de sorrir. Ao ver o sorriso o carpinteiro fez um ar indignado e proferiu: "Olhe sr. Imediato, o senhor não se ria. Não se esqueça que este navio é de madeira e de madeira percebo eu que sou carpinteiro!"
Realmente ele é que sabia como aquilo estava.

2 comentários:

O Nunes da Cruz disse...

Boa, Allen, Venham mais destas deliciosas Histórias. Adiciona ao teu comprovado talento de fotógrafo o de nós desconhecido de contador de histórias.

O A.R.Costa disse...

E vão duas! Estou a gostar do conteúdo, mas também da forma como é feita a descrição do contexto.