Memórias
A história conta-se em poucas linhas.
Ainda no activo, já fazia traduções literárias nas horas livres. Numa dada ocasião um editor pediu-me que traduzisse “Tres tristes tigres”, de Guillermo Cabrera Infante, empresa que nada tinha de fácil para um tradutor empenhado mas pouco experiente.
Como no livro abundassem jogos de palavras praticamente intraduzíveis, aproveitei uma ida a Inglaterra do navio em que me encontrava e, mediante prévia combinação, desloquei-me de comboio a Londres para me encontrar com o autor e propor-lhe algumas adaptações, com as quais ele felizmente concordou, levando a simpatia ao ponto de me convidar para pernoitar em sua casa.
A minha memória não é de todo confiável, mas nunca esquecerei a entrada em casa de Cabrera Infante. Recortando-se contra o fundo de uma enorme bandeira de Cuba na parede fronteira à porta, o autor esperava-me, na companhia da mulher.
E o que mais retive foi a saudação com que me recebeu: “Cómo va la Marina Portuguesa?” Não recordo exactamente o que lhe respondi, algo relacionado com a situação geral do país, mas isso interessa pouco ao caso.
O que importa é a reflexão que hoje se me impõe: como lhe teria respondido hoje, sem um indisfarçável sentimento de incomodidade?







