quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Perguntar não ofende

Ensino especializado de música

Manuel Alegre: Medida anunciada vai empobrecer o país

[20.02.2008]

“Eliminar a possibilidade de o ensino público especializado da música continuar a gerar talentos e revelar vocações é uma decisão grave” afirmou hoje o deputado Manuel Alegre, em pergunta dirigida ao Ministério da Educação. Alegre considera que esta medida anunciada “irá atirar para o ensino privado todos os alunos que não puderem ou não quiserem optar, desde muito cedo, por uma dedicação exclusiva à música, com custos muito superiores para as famílias.”

O deputado socialista considera que “é louvável a intenção de levar o ensino da música a todas as escolas desde o 1º ciclo”, mas que “não é realista” substituir o ensino especializado actualmente existente, nem é “razoável proibir as actuais escolas públicas de música de prosseguirem com uma prática que se tem revelado positiva e que é frequente noutros países europeus.”
Manuel Alegre contesta o argumento invocado pelo governo relativo ao elevado insucesso escolar no ensino supletivo ou articulado nas escolas públicas de música. Para o deputado socialista “o argumento é mistificador”, pois “o ministério esquece que estes alunos já obtiveram ou vão obter os seus diplomas nas escolas que frequentam em paralelo”.
“A música, diz ainda Manuel Alegre, é uma arte e uma forma de conhecimento a que todos podem e devem aceder, mas que só alguns serão capazes de exercer.” A medida anunciada pelo governo “terá como efeito perverso diminuir o papel dinamizador e gerador de talentos das escolas públicas de música, levando à privatização de um recurso que até agora tem sido assegurado pelo ensino público”. Em última análise, conclui, “será o país que sairá empobrecido.”

Por todas estas razões Alegre quer que o Ministério da Educação responda às seguintes questões:


“1. Por que razão se pretende extinguir o ensino especializado da música, fornecido em regime supletivo ou articulado nas escolas públicas de música? Por que se quer obrigar os alunos e suas famílias a optar pelo ensino privado ou, em alternativa, a ter de escolher a carreira musical numa idade em que as opções ainda devem estar em aberto?


2. Quantas escolas do 1º ciclo estão em condições de oferecer desde já ensino da música em actividades de enriquecimento curricular? Qual vai ser o currículo e a carga horária semanal? Haverá ensino individual de instrumento em todas essas escolas? Dispõem essas escolas de professores e de instrumentos em quantidade e qualidade suficiente para garantir a cobertura nacional dessa reforma?


3. Em que razões pedagógicas pertinentes se funda a vontade de proibir que as escolas superiores de música possam continuar a ministrar ensino especializado em regime de iniciação, em regime supletivo ou em regime articulado? Pode o governo invocar algum país europeu que tenha seguido essa opção e quais os seus resultados?”

A pergunta escrita de Manuel Alegre deu entrada na mesa da Assembleia da República esta manhã, nos termos regimentais e deverá ser agora respondida pelo governo. Recorde-se que este tema foi alvo de uma petição subscrita por milhares de alunos, pais, professores e músicos, entregue na AR na passada sexta-feira.

2 comentários:

O MPM disse...

Bom tema , sim senhor.

Isto , para mim , é de tal maneira escandaloso e sem senso algum , que só me resta concluir que estou pouco e certamente mal informado.

O Jorge Beirão Reis disse...

Esta história faz-me lembrar uma outra (de natureza e alcance completamente diferentes, sendo tal associação defeito desta cabeça sexagenária:
Em pleno PREC, deslocouce um eminete revolucionário à Suécia, tendo anunciado, ufano, que o objectivo da revolução era acabar com os ricos. O seu interlocutor ter-lhe-á retorquido (eu não estava presente, não posso garantir) que o objectivo do governo sueco era acabar com os pobres!
Lembro-me também que, no meu tempo de liceu, as aulas de canto coral eram um autêntico gozo, sendo os professores o objecto principal desse nosso gozo!