terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

O Comodoro – take II

 E o resto são “estórias”

É esta, em traços largos, a origem das anedotas que se foram contando durante a comissão do DFE8 na Guiné e a seguir a ela. A partir daqui o "Comodoro", que era apenas um burro simpático, passou a ser objecto de conversas em alguns locais de Bissau e depois, com o fim das comissões do pessoal da Marinha que iam ocorrendo regularmente, a sua fama galgou oceano e fronteiras e veio também a ser falado na Escola e na Força de Fuzileiros, propagando-se até a algumas câmaras de navio. E claro, como quem conta um conto acrescenta um ponto, as “estórias” foram-se tecendo e entretecendo.

A primeira vez que me apercebi da "internacionalização" do fenómeno “Comodoro” ocorreu nas minhas últimas férias da comissão na Guiné, quando passei dois ou três dias em Lisboa, antes de partir para os Açores, onde se encontravam a minha mulher e o meu filho. Aproveitei esse tempo para ir à Força de Fuzileiros tratar de um qualquer assunto e dar dois dedos de conversa com camaradas que por lá se encontravam. No regresso utilizei a vedeta da Base Naval para a Doca de Marinha. Estava já sentado na câmara de oficiais quando entrou uma meia dúzia de cadetes. A conversa entre eles era animada e andava à volta das peripécias de um burro que se chamava “Comodoro” e de um comandante de Destacamento que, entre outras coisas, teria desembarcado à frente do seu Destacamento montado nesse burro. Depois de os ouvir, e como ainda estivéssemos a meio da viagem, resolvi intervir e dar um pouco de sumo de verdade às estórias contadas. Qual quê! Um dos cadetes, o que parecia conhecer melhor a estória, afirmava peremptoriamente que era mesmo assim, porque lhe tinha sido contada por um oficial que acabara de regressar Guiné. Para terminar, já perto da Doca da Marinha, resolvi identificar-me como o comandante que acompanhava o burro, o que, possivelmente, ainda aumentou alguns pontos aos contos que já corriam.

Mas a facilidade com que a associação da alcunha de uma pessoa que desempenhava um papel importante no contexto da guerra na Guiné a um simpático burro, mascote de um Destacamento de Fuzileiros, se dissemina e ganha relevo em alguns meios militares não deixa de ser também um indício do estado de cansaço e decomposição em que se encontravam já a forças que defendiam o regime e o império. Mas, essa, é já uma outra história, que não é para aqui chamada.

As estórias que envolvem o burro “Comodoro”, mascote de um Destacamento de Fuzileiros, referidas ao teatro de guerra da Guiné, têm assim origem numa breve passagem do Destacamento por Bissau e devem ser contextualizadas no seu tempo e nas suas circunstâncias. Muitas delas não passam mesmo disso: estórias e imaginação naval.

E agora que me lancei ao trabalho de contar as estórias do burro “Comodoro”, não sei como as vou contar. Se me cingir ao registo memorialista, há uma ou duas situações em que os factos se revestem de alguma ironia e estão próximos do que é contado, mas dariam no seu conjunto uma narrativa com pouco ou nenhum sal e pimenta. Contar as estórias do "Comodoro" nas suas múltiplas versões, por terem graça e poderem ter acontecido — eu próprio também as conto e até as vou acrescentando num ou noutro aspecto — porque alegram as conversas de grupo que decorrem em reuniões e almoços de confraternização, normalmente bem regados, é tarefa relativamente fácil quando acontece num registo oral e informal. Para o fazer por escrito, como vai ser o caso, teria de adoptar um registo de escrita memorialista ou ficcional, para o qual confesso as minhas insuficiências. De qualquer forma, como o prometi, vou tentar.

“Solicito informe Comodoro embarca”

O DFE8 recebeu ordem de movimento para se deslocar de Ganturé para uma outra zona da Guiné, Gampará, onde se desenrolava uma operação de ocupação de território, até então sob o controlo do PAIGC, para a instalação de um aquartelamento e aldeamento.  Seria transportado numa LFG até Bissau, seguindo depois para Gampará. Estava nos preparativos para a partida quando me trazem uma mensagem da LFG que iria transportar o Destacamento, a inquirir se o Comodoro embarcava e se era necessário aboná-lo. Conhecia bem o comandante da LFG e o seu sentido de humor. Resposta quase imediata, adoptando o mesmo tom: «Afirmativo. Dispensa honras militares. Solicito abonar um fardo de palha cada refeição». O Destacamento embarcou na LFG, tendo o "Comodoro" um local à popa devidamente reservado, enquanto o restante pessoal se ia distribuindo pelos cantos do navio em que se sentia mais confortável.

Um desembarque montado no burro

Na ida para Gampará o Destacamento embarcou numa LFG e, já perto da península de Gampará, passou para uma LDM que foi abicar num local que se encontrava alagado, sendo, portanto, necessário fazer um pequeno percurso a pé até chegar a terra firme, molhando as botas e as calças do camuflado na água e no lodo. Para não me sujar resolvi, por sugestão do Imediato, que se preocupava constantemente com o meu bem-estar, desembarcar montado no burro. Estória sem história, até porque o percurso foi muito curto, mas, acrescentando-lhe um ponto, aí me temos numa tradicional operação de desembarque de Fuzileiros a sair pela porta da LDM montado no "Comodoro" e cavalgar (ou talvez devesse dizer “burricar”) pela bolanha fora até atingir terra firme. Não seria má ideia adoptar o processo em muitas das operações que fizemos, quando a travessia da bolanha após o desembarque era por vezes dura e cansativa, mas nessas ocasiões o bom do "Comodoro" ficava pachorrentamente a pastar junto do aquartelamento e eu não tinha outra solução senão desembaraçar-me do lodo como toda a gente fazia na Guiné.

Uma revista fora do comum

Uma outra estória coloca-nos em Bissau, numa das curtas estadias do Destacamento. Regressávamos ao fim de cerca de dois meses e meio acampados em Gampará. Quando desembarcámos, das janelas do edifício do CDMG (Comando da Defesa Marítima da Guiné) alguém reparou que o pessoal trazia cabelo e barba com comprimentos e aspecto pouco apresentáveis nas ruas de Bissau. Tendo chegado ao meu quarto e oferecendo-me um longo e repousante banho, fardei-me e fui apresentar-me ao Comando. Depois do habitual diálogo sobre como as coisas tinham corrido durante a estadia e ao dar por finda a apresentação, recebo ordens para passar uma revista ao destacamento e mandar cortar o cabelo aos marinheiros que o tivessem fora dos regulamentos, antes de dar licenças. Tentei explicar a situação: que em Gampará não havia barbeiros, que passar uma revista sem dar tempo aos marinheiros para se prepararem era imprudente e injusto porque teria de privar de saída quase todo o pessoal, incluindo eu próprio, como estava bem à vista, que isso seria um castigo imerecido depois das situações que tínhamos vivido nos últimos meses, etc. Nada disto demove o Comandante da Defesa Marítima que me ordena, terminantemente, que passe imediatamente revista ao Destacamento.

Regresso às Instalações Navais furioso com a ordem e comigo mesmo. Com o Imediato e os oficiais discutimos a forma de executar a revista sem provocar um enorme descontentamento no pessoal, que se tinha comportado de uma forma exemplar nos anteriores meses de privações e dificuldades e estava ansioso por perder-se nas ruas e cafés e bares de Bissau para um ou dois dias longe do mato. Entre muitas sugestões para contornar o problema lembro-me de ser aventado que passasse a revista, pusesse toda a gente no livro, incluindo-me a mim, claro, e que depois ficássemos todos no aquartelamento sem sair de licença. Entretanto chegou a hora do almoço sem marcamos a hora a que passaria a revista, mas o Imediato transmitiu instruções para o pessoal não ir ainda de licença. Na messe, conversando com alguns camaradas sobre a situação que já começava a ser comentada, fui dizendo que aquilo que uma ordem daquelas estava a pedir era que passasse a revista montado no burro. Fala daqui, fala dali, a ideia parece ter ganhado alguma substância, tanto que, no fim do almoço, fui abordado por um camarada e amigo de longa data que me perguntou, com um ar sério e preocupado, se ia passar a revista de burro. Respondi-lhe, divertido, que estava a pensar nisso, e em troca recebi os mais afectuosos e prudentes conselhos.

Cerca de meia hora após o almoço, voltei a reunir-me com os oficiais para combinarmos a revista. Depois do impacto que a ideia tinha provocado nas conversas durante o almoço, confesso que não descartei de todo a hipótese de a fazer montado no burro, e quanto mais o tempo ia passando, mais ela se ia entranhando e encontrando abertas na minha cabeça, tanto mais que, nas consultas rápidas que fiz na pouca legislação que tinha disponível (Ordenança do Serviço Naval), nada está determinado quanto à forma de passar uma revista; para além disso vinham-me constantemente à cabeça as imagens de D. Quixote e Sancho Pança no livro de Cervantes e algumas cenas das versões cinematográficas do D. Quixote que já tinha visto. Quando estávamos já a terminar a reunião e prontos para dar a ordem de formar ao pessoal que se encontrava fardado de branco à espera, recebemos a informação veiculada pelo comandante da Companhia de que a revista podia ser adiada para a ocasião que eu achasse mais conveniente. E, realmente, passei revista ao destacamento, com o pessoal com os cabelos e barbas convenientemente aparados, pouco antes de embarcarmos para um novo destino.

É que, entretanto, o diz-que-diz da messe tinha corrido pela Avenida Marginal e galgara algumas escadas do edifício do Comando, fazendo prevalecer algum bom senso e o argumento de que em tempo de guerra, se não se limpam armas, também não se cortam cabelos e barbas.

Mas a estória de ter passado uma revista ao destacamento montado no burro passou… e, francamente, se não aconteceu… podia muito bem ter acontecido.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

O Comodoro – Take 1

Num dos nossos últimos almoços entre muitas recordações dos tempos em que desfrutávamos das lembranças dos prazeres e vicissitudes da nossa vida de marinheiros, contaram-se algumas estórias da Guiné, entre elas as do burro "Comodoro", que foi mascote do destacamento de Fuzileiros que comandei. A voz da abita atribui-me a mim e ao burro algumas aventuras divertidas, tendo os camaradas que estavam na mesma mesa insistido para que eu as escrevesse. Não me sinto vocacionado quer para a escrita memorialística, quer para a ficcional, mas o confinamento de alguns meses levou-me a tentar fazer qualquer coisa com essas estórias, umas com um fundo de verdade, outras parcial ou totalmente ficcionadas, mas que, de alguma forma, retratam o ambiente que vivíamos na Guiné nessa época das nossas vidas.

E se para outra coisa não servirem, pelo menos libertarão durante uns dias o Simões Lopes da necessidade de animar o nosso tão adormecido blogue.



                                                                O comodoro em Gampará

Um burro em Ganturé

A história conta-se em duas penadas. Ou, atendendo ao contexto, talvez devesse dizer em duas patadas.

Um dia, ao levantar-me para tomar o pequeno almoço, vi, pastando pachorrentamente no meio dos abrigos da base de Ganturé, um burro. À minha interrogação sobre o que fazia ali um burro, o Imediato disse-me simplesmente: "Foi o pessoal que o trouxe." No contexto de Ganturé era uma explicação mais que suficiente e perfeitamente aceitável. O pessoal ia trazendo, adoptando e tratando toda a espécie de animais: gazelas, macacos grandes e pequenos, papagaios, cabritos, porcos, cães, patos, etc. Porcos, cabritos e galinhas, então, apareciam com bastante frequência e quantidade, comprados à população (ou adquiridos por outras formas menos decentes), mas esses acabavam muito rapidamente no forno ou dentro de uma panela.

Mas vamos ao burro, que é o que por agora nos interessa. Há várias estórias a justificarem o seu aparecimento: que fora largado por uma coluna do PAIGC que retirou apressadamente quando foi interceptada por uma patrulha de botes; que fora roubado numa povoação das margens do rio Cacheu; que fora comprado por um marinheiro numa povoação próxima, etc.… Sobretudo entre os oficiais correu uma outra versão, totalmente falsa e, diria, um pouco maldosa, de que teria sido eu a adquirir o burro como mascote do destacamento, em jeito de brincadeira ou represália, depois de um desentendimento com o Comodoro, Comandante da Defesa Marítima. Na realidade, o aparecimento do burro no destacamento não se reveste de grande interesse para as estórias que dele se contam, servindo apenas para uma alegre e acesa disputa nos regulares almoços do Destacamento, na qual todas as hipóteses têm autores e acalorados defensores, menos aquela que se me atribui como protagonista ,porque todo o pessoal do Destacamento sabe que não tem ponta nem arreata por onde se lhe pegue.

Sobre o seu baptismo também correm várias versões. Uma delas, aquela que mais insistentemente se difundiu, em especial entre os oficiais, coloca-me como padrinho. Não o apadrinhei e, francamente, nos primeiros tempos em que ele andou por Ganturé, nem sequer sabia o nome por que ele era tratado. A primeira pessoa que me tocou no assunto foi o Comandante da LFG Orion, o saudoso Coelho Rita, que no meio de um jogo de brídege na câmara do navio referiu, com o seu humor característico, o nome que o pessoal estava a dar ao burro. Também achei piada ao onomástico, mas não lhe atribuí grande significado. Não passava da habitual prática do pessoal da Marinha de arranjar alcunhas, por norma elucidativas e com uma certa dose de humor. Eu também fui alcunhado no dia em que entrei na Escola Naval e, ainda hoje os que me conheceram me tratam por essa alcunha, pelo que aqui me abstenho modestamente de a repetir.

Durante os primeiros tempos em que o burro permaneceu em Ganturé, foi “o burro” e simplesmente “o burro”. Ora o marinheiro que se assumia como dono e tratador do animal tinha a alcunha de Comodoro, adquirida logo nos primeiros dias da recruta, quando informou que era da terra de um oficial de Marinha que tinha esse posto. Ficou “o Comodoro” até hoje, e eu próprio sempre assim o tratei desde o curso de Fuzileiros Especiais. Era, portanto, “o burro”, “o burro do Comodoro”, e não passava disso mesmo, embora não deixasse de ser uma mascote e, por ser exemplar único por aquelas bandas, chamar alguma atenção. Aos poucos, o burro foi sendo adoptado, tratado e montado por todo ou quase todo o pessoal, tendo-se tornado popular junto das lavadeiras que todas as manhãs invadiam a base para trazer a roupa lavada e recolher a suja e se dirigiam sempre ao local em que o animal se encontrava, a fim de verificarem com os seus próprios (e provavelmente arregalados) olhos o estado de visibilidade em que se encontrava o seu proeminente órgão reprodutor, e da população de Bigene, onde costumava andar livremente pelas ruas principais, acompanhando o pessoal que para lá se deslocava para espairecer e se distrair. Também o pessoal das guarnições das LFG's, LDG's e LDM's, que atracavam regularmente em Ganturé, foi travando conhecimento com o burro do marinheiro “Comodoro”. Com o decorrer do tempo passou a ser denominado unicamente por "Comodoro". O "Comodoro" era, em Ganturé, o burro-mascote do Destacamento.

E um dia o burro vai a Bissau e arma granel!

Veio um dia em que o Destacamento recebeu ordem de marcha para embarcar numa LFG , seguir para Gampará, onde ficaria estacionado, com uma paragem de alguns dias em Bissau. Naturalmente, o burro e as outras mascotes, em especial o macaco “Gâmbia”, do qual poderei vir a falar um dia, acompanharam a unidade, desembarcando em Bissau e sendo levados para as Instalações Navais.

Se o destacamento não tivesse esta passagem por Bissau muito provavelmente não haveria estórias, tal como aconteceria se ao Comandante da Defesa Marítima da Guiné não tivesse sido dada (obviamente à boca pequena) a alcunha de "burro", possivelmente já tão antiga e, para exercermos aqui a excelsa virtude da caridade, porventura imerecida, e o seu posto na Marinha não fosse, na altura, precisamente o de Comodoro.

Ao fim da tarde, quando me encontrava com alguns camaradas numa esplanada a tomar umas cervejas acompanhadas com a mancarra que os miúdos africanos iam despejando em cima das mesas logo que se apercebiam de que os pires em que vazavam as suas doses estavam vazios, vi passar em frente um grupo, bastante divertido, de alguns marinheiros do Destacamento, um dos quais montado no burro. Ao fim de alguns meses de mato o pessoal tinha ido desopilar e um burro a passear com marinheiros nas ruas de Bissau era uma aparição pouco comum e a justificar a alegria que o grupo parecia estar a viver. Fui jantar um bife ao “Solar do 10” com os oficiais do Destacamento e o meu irmão, que se encontrava a prestar serviço no Regimento de Engenharia; demos uma volta pela cidade, fomos beber um copo à Engenharia e, já tarde, regressámos aos nossos quartos nas Instalações Navais.

Acordar num quarto só para mim, numa cama, “cama própria”, e não num abrigo em Ganturé, num beliche com mosquiteiro, tendo a dormir ao meu lado mais um dezena de camaradas, causou-me um sentimento de estranheza que foi passando à medida que ia procedendo à minha higiene matinal. Tomei, ao fim de alguns meses de duches com água à temperatura ambiente, um longo e quente banho, fardei-me e dirigi-me à messe para tomar o pequeno-almoço. Sentei-me na mesa onde já se encontravam os esfomeados oficiais do destacamento, desfrutando de uma lauta refeição matinal. Estávamos em amena cavaqueira, combinando o que iriamos fazer durante o dia a fim de preparar a partida para Gampará, quando um camarada e amigo se aproximou da mesa e, com ar sorridente e matreiro, perguntou: «Então, trouxeste o “Comodoro” a passear a Bissau?», e desandou sem esperar uma resposta. A pergunta desencadeou entre nós alguns risos, mas despertou-me, ao mesmo tempo, a atenção para algumas das outras mesas de onde nos eram dirigidos olhares curiosos e nada discretos. Como havia muito que fazer para preparar o Destacamento, cada um de nós foi tratar dos seus afazeres. Eu fui para o meu quarto, escrevi uma carta à minha mulher e passei algum tempo a tentar dar alguma ordem aos papéis que iam chegando e se acumulavam. Estava nesta tarefa quando o Imediato me entra pelo quarto dentro e, no seu jeito operacional, dispara: «O 2º Comandante mandou prender o “Comodoro”; está amarrado a uma corrente junto da caserna. Temos de o pôr a pastar na bolanha.» Fomos tentar saber o que se passava. O burro estava calmamente amarrado a uma grossa corrente, rodeado por vários marinheiros do Destacamento que iam trocando opiniões sobre o que se estaria a passar. Dirigi-me então ao gabinete do comandante da Companhia de Fuzileiros responsável pelas Instalações Navais de Bissau, que era um camarada de curso, dotado de um belo e apurado sentido de humor, que me informou que no dia anterior o pessoal do Destacamento tinha andado a passear o burro pelas ruas de Bissau, entrando em lojas com o burro e passado em frente do palácio do Governador; que por Bissau se comentava o nome do burro; que parece que o próprio General tinha telefonado para o Comodoro e que em resultado de tudo isso o 2º Comandante lhe telefonara, logo pela manhã, a dar a ordem de prender o Comodoro. Perante o seu espanto e a sua pergunta «O Comodoro?», o 2º Comandante teria respondido: «Sim! O "Comodoro", o burro do Oitavo». E lá estava o burro calmamente preso a uma grossa corrente de ferro!

Não havia nada a fazer e, por isso, limitei-me a dizer ao camarada que teria de dar de comer ao burro o mais depressa possível, retirando-me para os meus afazeres, não sem antes pedir ao Imediato para avisar o pessoal que a alimentação do burro iria ser assegurada. Pouco depois aparece-me, novamente, o Imediato a informar-me de que o 2º Comandante não quer saber da alimentação do burro e também não o deixa soltar a fim de ir pastar. Vou falar novamente com o comandante da Companhia e, perante o impasse que parecia existir, ponho-me a caminho do Comando da Defesa Marítima.

Não sou bem recebido. O 2º Comandante era conhecido por algumas saídas intempestivas. Tento ouvi-lo calmamente, entre comentários sobre os acontecimentos do dia anterior e ameaças sobre o que poderia acontecer se o burro continuasse a fazer tropelias pela cidade, associando a tudo isto insinuações de hipotéticas intenções políticas. Depois do seu discurso manifestei a minha concordância relativamente à necessidade de regular o comportamento futuro do burro, coisa que, evidentemente, ficaria sob minha responsabilidade, mas, na impossibilidade de o animal pastar na bolanha, teria de ser encontrada uma solução para assegurar a sua alimentação. Começou por dizer que não tinha nada que ver com isso, mas quando, referindo a minha incapacidade para encontrar alimentação adequada em Bissau, lhe falei da afeição dos marinheiros ao seu burro, da preocupação que já expressavam por ele não estar a ser convenientemente alimentado e de isso poder desencadear alguma espécie de reacção indesejável, deu-me instruções para ir falar com o comandante Figueiredo, chefe do Serviço de Abastecimentos, no sentido de arranjar palha para o burro.

Conhecia o comandante Figueiredo desde a viagem de curso na Sagres. Como eu, todos os cadetes do meu curso ficaram a nutrir por este camarada mais velho uma simpatia e admiração que durou a vida toda. Recebeu-me com afabilidade e logo, com ar divertido, exclamou: «Então você têm um burro chamado “Comodoro"?  Mais divertido ficou quando lhe dei conta da tarefa que lhe era encomendada pelo 2º Comandante. «Mas onde vou eu arranjar palha em Bissau?!» exclamava, sem deixar de rir ao mesmo tempo. Mantendo o humor, o Comandante Figueiredo, paternalmente, foi-me alertando para os problemas que poderiam advir do nome do burro. Quando lhe contei que o nome de “Comodoro” dado ao burro vinha do facto do seu dono e tratador ser um marinheiro com essa alcunha e que, ao contrário do que se dizia e era também sua convicção, eu não tinha tido qualquer intervenção no aparecimento do burro e no seu nome de baptismo, rompeu em gargalhadas. Quanto à palha, teríamos mesmo de arranjar uma solução, porque o burro tinha de comer qualquer coisa nesse dia. Ao princípio da tarde é o próprio comandante Figueiredo que me procura para me dizer que em Bissau não se conseguiu encontrar palha. Eis-me, assim, obrigado a falar novamente com o 2º Comandante. Depois de lhe explicar a situação e a necessidade de alimentar o burro, lá concordou em libertar o animal, mas… eu seria responsabilizado pelas suas eventuais tropelias. No regresso às Instalações Navais, chamei o Imediato e dei-lhe instruções no sentido de soltar o burro e assegurar-se de que não haveria mais cenas na cidade.

E o burro lá partiu pacificamente para a bolanha, devidamente escoltado por um marinheiro do Destacamento. No dia seguinte, logo de manhã vêm chamar-me para ir falar com o camarada que comandava a Companhia. Mal entro no seu gabinete, com um sorriso aberto e divertido, pergunta: «Ó Selva, já viste a escala de serviço que está afixada na porta da coberta do teu pessoal?». Perante a minha negativa, partimos os dois para a coberta. Realmente, afixada na porta estava a escala de serviço do DFE 8, que numa das linhas contemplava um “plantão ao Comodoro”. Alguém já tinha soprado o facto ao 2º Comandante, que telefonara para o comandante da Companhia ordenando a retirada do papel e mandando-me chamar ao seu gabinete. Retirado o ofensivo papel, enchi-me de paciência para voltar a ouvir o discurso reprovador do 2º Comandante, a quem reiterei a minha disposição de não permitir que voltassem a acontecer cenas desagradáveis, mas também a impossibilidade de me livrar do burro, como ele quase me exigia.

Foi no fim de todas estas peripécias que o burro, que era, até aí, única, exclusiva e tão somente um burro e nada mais, o burro do marinheiro “Comodoro”, passou a ser o "Comodoro", o burro do DFE8.

ALMIRANTES

 

A 22 de Fevereiro de 1787, há uma mudança na designação dos postos superiores da Marinha: os Tenentes-Generais da Armada passam a ser designados por Vice-Almirantes e estes por Almirantes.

domingo, 21 de fevereiro de 2021

JOÃO BELO


A 21 de Fevereiro de 1902, João Belo aprisiona 2 pangaios negreiros e destrói a povoação negreira de Neburi.

sábado, 13 de fevereiro de 2021

TRATADO DE LISBOA

 Foi a 13 de Fevereiro de 1668 que em Lisboa foi consumado o tratado em que Espanha reconhece definitivamente a independência de Portugal. Termina assim a Guerra da Restauração.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

VASCO DA GAMA

A 10 de Fevereiro de 1502, Vasco da Gama já nomeado Almirante do Mar da Índia, parte à frente de uma esquadra de 15 navios, para a Índia.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

OCEANOS

 9 de Fevereiro de 1943, nasce o Casado Parreira que ingressa em 1962 nos OCeanos. Da Ericeira vem o seu apetite pelo mar. Uma carreira naval polifacetada, bom comunicativo sempre com uma resposta pronta com um certo humor. Habitual nas nossas fainas gastronómicas, infelizmente interrompidas por esta borrasca.

Que tenhas um bom dia de aniversário com os teus e que o possas repetir por muitas vezes com saúde e boa disposição.

Um grande Abraço.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

SAGRES

 A 8 de Fevereiro de 1962 é içada a bandeira nacional, pela primeira vez, na Sagres sendo incorporada na Marinha de Guerra Portuguêsa. Foi seu primeiro Comandante o então Capitão-Tenente Henrique da Silva Horta. A Sagres tem assim mais 7 mêses de Marinha que o nosso curso.

domingo, 7 de fevereiro de 2021

OCEANOS

Hoje mais um OCeano celebra o seu aniversário. O Lopes Moreira, o Zé Pedro para uns o Pedro para outros, nasceu em 7 de Fevereiro de 1942 em plena guerra. Ingressou no OC desde o início na classe AN. Sempre bem disposto e feliz, só quando lhe “pisavam os calos” é que ele fervia. Grande Camarada e Amigo teve uma longa carreira naval. Agora retirado das lides navais nações coube de manter a sua actividade física para estar em forma. Apesar deste confinamento espero que tenhas um feliz aniversário com os teus e que repitas por muitas vezes, já sem confinamento, esta efeméride. 

Um grande Abraço.

sábado, 6 de fevereiro de 2021

TRATADO DE UTRECH

 Foi a 6 de Fevereiro de 1715 que foi assinado o tratado de Utrech entre João V (Portugal) e Filipe V (Espanha) que determina a restituição a Portugal a colónia de Sacramento ( actual Uruguai).

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Um Pouco de Jazz

 Para animar, ouçam esta lenda, Hazel Scott  aqui: https://youtu.be/iTwNXS_nAkE . 

ÍNDIA


A 5 de Fevereiro de 1529, Lopo Vaz De Sampaio destrói, ao largo de Bombaim, uma armada de Cambaia.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

MALDIVAS

A 3 de Fevereiro de 1566, os Portuguêses vencem a armada de Sambim ao largo das Maldivas.

BARTOLOMEU DIAS


A 3 de Fevereiro de 1488, Bartolomeu Dias fundeia finalmente em Mosel Bay. Depois será o regresso a Lisboa.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

DAMÃO


A 2 de Fevereiro de 1559, D. Constantino de Bragança toma Damão.