O Comodoro – take II
E o resto são “estórias”
É
esta, em traços largos, a origem das anedotas que se foram contando durante a
comissão do DFE8 na Guiné e a seguir a ela. A partir daqui o "Comodoro",
que era apenas um burro simpático, passou a ser objecto de conversas em alguns
locais de Bissau e depois, com o fim das comissões do pessoal da Marinha que
iam ocorrendo regularmente, a sua fama galgou oceano e fronteiras e veio também
a ser falado na Escola e na Força de Fuzileiros, propagando-se até a algumas
câmaras de navio. E claro, como quem conta um conto acrescenta um ponto, as
“estórias” foram-se tecendo e entretecendo.
A
primeira vez que me apercebi da "internacionalização" do fenómeno “Comodoro”
ocorreu nas minhas últimas férias da comissão na Guiné, quando passei dois ou
três dias em Lisboa, antes de partir para os Açores, onde se encontravam a
minha mulher e o meu filho. Aproveitei esse tempo para ir à Força de Fuzileiros
tratar de um qualquer assunto e dar dois dedos de conversa com camaradas que
por lá se encontravam. No regresso utilizei a vedeta da Base Naval para a Doca
de Marinha. Estava já sentado na câmara de oficiais quando entrou uma meia
dúzia de cadetes. A conversa entre eles era animada e andava à volta das
peripécias de um burro que se chamava “Comodoro” e de um comandante de Destacamento
que, entre outras coisas, teria desembarcado à frente do seu Destacamento
montado nesse burro. Depois de os ouvir, e como ainda estivéssemos a meio da viagem,
resolvi intervir e dar um pouco de sumo de verdade às estórias contadas. Qual
quê! Um dos cadetes, o que parecia conhecer melhor a estória, afirmava
peremptoriamente que era mesmo assim, porque lhe tinha sido contada por um
oficial que acabara de regressar Guiné. Para terminar, já perto da Doca da
Marinha, resolvi identificar-me como o comandante que acompanhava o burro, o
que, possivelmente, ainda aumentou alguns pontos aos contos que já corriam.
Mas
a facilidade com que a associação da alcunha de uma pessoa que desempenhava um
papel importante no contexto da guerra na Guiné a um simpático burro, mascote
de um Destacamento de Fuzileiros, se dissemina e ganha relevo em alguns meios
militares não deixa de ser também um indício do estado de cansaço e
decomposição em que se encontravam já a forças que defendiam o regime e o
império. Mas, essa, é já uma outra história, que não é para aqui chamada.
As
estórias que envolvem o burro “Comodoro”, mascote de um Destacamento de Fuzileiros,
referidas ao teatro de guerra da Guiné, têm assim origem numa breve passagem do
Destacamento por Bissau e devem ser contextualizadas no seu tempo e nas suas
circunstâncias. Muitas delas não passam mesmo disso: estórias e imaginação
naval.
E
agora que me lancei ao trabalho de contar as estórias do burro “Comodoro”, não
sei como as vou contar. Se me cingir ao registo memorialista, há uma ou duas
situações em que os factos se revestem de alguma ironia e estão próximos do que
é contado, mas dariam no seu conjunto uma narrativa com pouco ou nenhum sal e
pimenta. Contar as estórias do "Comodoro" nas suas múltiplas versões,
por terem graça e poderem ter acontecido — eu próprio também as conto e até as vou
acrescentando num ou noutro aspecto — porque alegram as conversas de grupo que
decorrem em reuniões e almoços de confraternização, normalmente bem regados, é tarefa
relativamente fácil quando acontece num registo oral e informal. Para o fazer
por escrito, como vai ser o caso, teria de adoptar um registo de escrita memorialista
ou ficcional, para o qual confesso as minhas insuficiências. De qualquer forma,
como o prometi, vou tentar.
“Solicito informe Comodoro embarca”
O
DFE8 recebeu ordem de movimento para se deslocar de Ganturé para uma outra zona
da Guiné, Gampará, onde se desenrolava uma operação de ocupação de território,
até então sob o controlo do PAIGC, para a instalação de um aquartelamento e
aldeamento. Seria transportado numa LFG
até Bissau, seguindo depois para Gampará. Estava nos preparativos para a
partida quando me trazem uma mensagem da LFG que iria transportar o Destacamento,
a inquirir se o Comodoro embarcava e se era necessário aboná-lo. Conhecia bem o
comandante da LFG e o seu sentido de humor. Resposta quase imediata, adoptando
o mesmo tom: «Afirmativo. Dispensa honras militares. Solicito abonar um fardo
de palha cada refeição». O Destacamento embarcou na LFG, tendo o "Comodoro"
um local à popa devidamente reservado, enquanto o restante pessoal se ia
distribuindo pelos cantos do navio em que se sentia mais confortável.
Um desembarque montado no burro
Na
ida para Gampará o Destacamento embarcou numa LFG e, já perto da península de
Gampará, passou para uma LDM que foi abicar num local que se encontrava alagado,
sendo, portanto, necessário fazer um pequeno percurso a pé até chegar a terra
firme, molhando as botas e as calças do camuflado na água e no lodo. Para não
me sujar resolvi, por sugestão do Imediato, que se preocupava constantemente
com o meu bem-estar, desembarcar montado no burro. Estória sem história, até
porque o percurso foi muito curto, mas, acrescentando-lhe um ponto, aí me temos
numa tradicional operação de desembarque de Fuzileiros a sair pela porta da LDM
montado no "Comodoro" e cavalgar (ou talvez devesse dizer “burricar”)
pela bolanha fora até atingir terra firme. Não seria má ideia adoptar o
processo em muitas das operações que fizemos, quando a travessia da bolanha
após o desembarque era por vezes dura e cansativa, mas nessas ocasiões o bom do
"Comodoro" ficava pachorrentamente a pastar junto do aquartelamento e
eu não tinha outra solução senão desembaraçar-me do lodo como toda a gente
fazia na Guiné.
Uma revista fora do comum
Uma
outra estória coloca-nos em Bissau, numa das curtas estadias do Destacamento. Regressávamos
ao fim de cerca de dois meses e meio acampados em Gampará. Quando
desembarcámos, das janelas do edifício do CDMG (Comando da Defesa Marítima da
Guiné) alguém reparou que o pessoal trazia cabelo e barba com comprimentos e
aspecto pouco apresentáveis nas ruas de Bissau. Tendo chegado ao meu quarto e
oferecendo-me um longo e repousante banho, fardei-me e fui apresentar-me ao
Comando. Depois do habitual diálogo sobre como as coisas tinham corrido durante
a estadia e ao dar por finda a apresentação, recebo ordens para passar uma
revista ao destacamento e mandar cortar o cabelo aos marinheiros que o tivessem
fora dos regulamentos, antes de dar licenças. Tentei explicar a situação: que
em Gampará não havia barbeiros, que passar uma revista sem dar tempo aos
marinheiros para se prepararem era imprudente e injusto porque teria de privar
de saída quase todo o pessoal, incluindo eu próprio, como estava bem à vista, que
isso seria um castigo imerecido depois das situações que tínhamos vivido nos
últimos meses, etc. Nada disto demove o Comandante da Defesa Marítima que me
ordena, terminantemente, que passe imediatamente revista ao Destacamento.
Regresso
às Instalações Navais furioso com a ordem e comigo mesmo. Com o Imediato e os
oficiais discutimos a forma de executar a revista sem provocar um enorme
descontentamento no pessoal, que se tinha comportado de uma forma exemplar nos
anteriores meses de privações e dificuldades e estava ansioso por perder-se nas
ruas e cafés e bares de Bissau para um ou dois dias longe do mato. Entre muitas
sugestões para contornar o problema lembro-me de ser aventado que passasse a
revista, pusesse toda a gente no livro, incluindo-me a mim, claro, e que depois
ficássemos todos no aquartelamento sem sair de licença. Entretanto chegou a
hora do almoço sem marcamos a hora a que passaria a revista, mas o Imediato
transmitiu instruções para o pessoal não ir ainda de licença. Na messe, conversando
com alguns camaradas sobre a situação que já começava a ser comentada, fui
dizendo que aquilo que uma ordem daquelas estava a pedir era que passasse a revista
montado no burro. Fala daqui, fala dali, a ideia parece ter ganhado alguma
substância, tanto que, no fim do almoço, fui abordado por um camarada e amigo
de longa data que me perguntou, com um ar sério e preocupado, se ia passar a
revista de burro. Respondi-lhe, divertido, que estava a pensar nisso, e em
troca recebi os mais afectuosos e prudentes conselhos.
Cerca
de meia hora após o almoço, voltei a reunir-me com os oficiais para combinarmos
a revista. Depois do impacto que a ideia tinha provocado nas conversas durante
o almoço, confesso que não descartei de todo a hipótese de a fazer montado no
burro, e quanto mais o tempo ia passando, mais ela se ia entranhando e
encontrando abertas na minha cabeça, tanto mais que, nas consultas rápidas que
fiz na pouca legislação que tinha disponível (Ordenança do Serviço Naval), nada
está determinado quanto à forma de passar uma revista; para além disso
vinham-me constantemente à cabeça as imagens de D. Quixote e Sancho Pança no livro
de Cervantes e algumas cenas das versões cinematográficas do D. Quixote que já
tinha visto. Quando estávamos já a terminar a reunião e prontos para dar a
ordem de formar ao pessoal que se encontrava fardado de branco à espera, recebemos
a informação veiculada pelo comandante da Companhia de que a revista podia ser
adiada para a ocasião que eu achasse mais conveniente. E, realmente, passei
revista ao destacamento, com o pessoal com os cabelos e barbas convenientemente
aparados, pouco antes de embarcarmos para um novo destino.
É
que, entretanto, o diz-que-diz da messe tinha corrido pela Avenida Marginal e galgara
algumas escadas do edifício do Comando, fazendo prevalecer algum bom senso e o
argumento de que em tempo de guerra, se não se limpam armas, também não se
cortam cabelos e barbas.
Mas
a estória de ter passado uma revista ao destacamento montado no burro passou…
e, francamente, se não aconteceu… podia muito bem ter acontecido.












