Uma das
recordações dos tempos da Guiné que ainda hoje me causa pesadelos são os
ataques de abelhas. Apanhei muitas picadas de abelhas durante as operações.
Possivelmente, adivinhando já os diabetes de que viria a sofrer mais tarde, não
poucas vezes, durante as progressões uma abelha resolvia pousar nas poucas
partes descobertas do meu corpo, normalmente os braços e a cara, onde não tinha
barba, para me deixarem um ferrão. Era doloroso, mas com o tratamento do
enfermeiro que me arrancava o ferrão e me punha por cima uma mezinha
apropriada, a coisa passava depressa. O que não esqueço mesmo são os ataques de
enxames de abelhas em que por duas ou três vezes me vi envolvido juntamente com
alguns homens que estavam perto de mim. A fúria de milhares de abelhas que se
agarravam à cara e a todas as partes do corpo descobertas para lá deixarem os
seus dolorosos ferrões, deixam-nos completamente indefesos e, nessas ocasiões,
larga-se tudo e foge-se em qualquer direcção até que elas desistam. Quando isso
acontecia, nem o enfermeiro me valia e todas as partes do corpo mais expostas
ficavam inchadas e doridas durante um ou dois dias. No meio disto tudo havia
alguns homens a quem as abelhas não incomodavam, que ficavam imperturbáveis,
uns completamente estáticos, outros dando uns estalidos com os dedos, outros
assobiando. Tentei todas estas estratégias sem qualquer resultado. As abelhas
realmente gostavam mesmo de mim.
Mas, de
todos os ataques de abelhas, o que sempre me assalta a memória foi mesmo o
primeiro e aconteceu logo no nosso primeiro mês de Guiné num reembarque em
botes do DFE 12, depois de uma operação na península de Sambuiá. Como era a
primeira vez que essa missão estava atribuída ao meu destacamento resolvi
acompanhar o pessoal dos botes que iriam fazer o reembarque num afluente do rio
Cacheu. Eram sete ou oito botes, com dois homens cada que penetravam no rio até
encontrarem o pessoal que se encontrava junto da margem à nossa espera. Seguia
no 3º bote acompanhado por um marinheiro veterano e a subida do rio correu sem
qualquer percalço. Em determinada altura começamos a ouvir gritos, aceleramos a
marcha e depois de uma curva do rio vimos alguns homens, entre os quais me
lembro ainda do tenente Lobato, chamando-nos e agitando freneticamente os
braços. A primeira ideia que me veio à cabeça foi a de haver alguém ferido e
que os gestos e gritos seriam para nos apressarmos, mas logo que os dois
primeiros botes chegaram junto deles, vi que também os homens que os guarneciam
se começaram a comportar de forma pouco habitual, agitando o corpo e sacudindo
a cabeça ao mesmo tempo que os homens no rio se içavam rapidamente para dentro
dos botes. Nessa altura o marinheiro que me acompanhava diz-me que são abelhas
e para eu não me mexer, mas nessa mesma ocasião fomos completamente rodeados por
nuvens de abelhas furiosas que esvoaçavam à nossa volta e nos atacavam. Os dois
primeiros botes retiram com o pessoal recolhido e os que vinham atrás de nós
não se aproximaram, mas o marinheiro que ia ao motor avança até ao local de
recolha para se certificar de que ninguém tinha ficado para trás e, insistentemente,
aconselha-me a não me mexer. Foi o que tentei fazer, mas cada vez mais abelhas
chegavam, pousavam e picavam. Arranquei da cara algumas mãos cheias de abelhas,
mas as dores das ferroadas tornaram-se insuportáveis. Não consegui manter a
imobilidade que o marinheiro me aconselhava e atirei-me para o rio tentando
ficar com a cabeça debaixo de água. O marinheiro também não aguentou e
atirou-se para a água. O bote seguiu, devagar, rio acima. Tentei usar a minha
experiência de mergulho, mantendo a cabeça debaixo de água o mais tempo que
podia, mas logo que vinha à superfície ficava novamente completamente coberto
de abelhas. Isto durou algum tempo até que elas deixaram de aparecer e os dois fomos
para a margem do rio oposta àquela onde o pessoal reembarcara. Nessa altura, já
não havia ninguém naquela zona, mas ouvíamos os motores dos botes e vozes mais
abaixo no rio. O resto do DFE 12, ao aperceber-se do ataque das abelhas tinha
procurado um outro local para o reembarque. Estávamos desarmados e
escondemo-nos no tarrafo esperando que alguém nos viesse buscar. Em determinada
altura aparece o nosso bote com o motor parado, a descer o rio com a maré. O
marinheiro propõe-me que lhe empreste o meu casaco do camuflado para ele o pôr
cima da cabeça e tentar agarrá-lo. Dispo o casaco e ele entra na água completamente
coberto, apanha o bote, consegue subir e pôr o motor a trabalhar. Eu saio do
tarrafo, entro na água, chego junto do bote e com a sua ajuda consigo também
embarcar. Nesse preciso momento caem-nos novamente em cima as abelhas que desta
vez para além da cara têm todo o meu tronco para explorar. O motor do bote vai
abaixo, o marinheiro tenta socorrer-me, descobre a cabeça e também ele fica
imediatamente coberto de abelhas. Volta, desesperadamente, a tentar que o motor
arranque. Não aguento as dores, atiro-me novamente para a água. Ele acaba por
fazer o mesmo. Estávamos os dois a tentar escondermo-nos debaixo da água quando
aparece um bote com dois marinheiros, com todo o corpo protegido por cobertores
que tinham arranjado na LFG. Conseguem içar-nos para bordo. O que não vinha ao
motor, aponta-nos um extintor de incêndios e cobre-nos de espuma. Regressamos a
toda a velocidade à LFG que nos esperava no rio Cacheu. O enfermeiro prestou-nos
os primeiros socorros. A toda a força das máquinas o navio ruma a Ganturé, onde
o médico do Exército que estava em Bigene nos esperava e nos tratou e acompanhou
até que os efeitos das picadas das abelhas abrandassem. Nenhum de nós fez
alergia grave e dois dias depois já os inchaços que tinham sido bem visíveis,
sobretudo na cara e nos olhos, tinham quase desaparecido. Uns dias mais tarde
comecei a ter dores fortes num dos ouvidos e fui à enfermaria pedir ajuda. O
enfermeiro resolveu o problema fazendo-me uma lavagem e retirando-me uma abelha
morta que estava alojada bem no fundo do ouvido.