Postal de Goa (XXI)
O MINÉRIO DE GOA
Para alguns, aquelas barcaças são a imagem de uma enorme riqueza económica, mas para outros são a imagem da delapidação dos recursos naturais e da destruição da paisagem.
Carregadas de minério, as barcaças descem o rio Mandovi e navegam até aos grandes navios mineraleiros fundeados ao largo da barra de Goa.
Depois de descarregadas, as barcaças regressam à sua base para voltar a carregar minério, subindo o rio Mandovi.
O território de Goa possui grandes concentrações de minério em qualidade e quantidade, com possibilidade de extracção a céu aberto e de escoamento por via fluvial, mas a sua exploração só começou a ter uma escala industrial e um valor significativo nas exportações goesas depois da 2ª Guerra Mundial.
Após a independência da Índia e com o bloqueio económico que, alguns anos depois, foi imposto ao Estado Português da Índia, as autoridades portuguesas decidiram iniciar a exploração mineira através do licenciamento de muitas concessões a grupos privados. Em 1953 já foram extraídas cerca de 1 milhão de toneladas de minério e, este resultado, mostrava como fôra eficaz a resposta portuguesa ao bloqueio indiano. Em 1959 havia 213 explorações mineiras e tinham sido extraídas cerca de 3 milhões de toneladas de minério.
Depois de 1961, a exploração mineira foi incrementada. Antes, os principais importadores eram o Japão, a Suécia e a Itália, mas nos últimos anos a procura mundial aumentou, estimulada sobretudo pela procura crescente da indústria chinesa.
Hoje são exportadas anualmente mais de 40 milhões de toneladas de minério, enquanto a actividade assegura cerca de 11.000 empregos directos e cerca de 10.000 indirectos, o que faz dela a segunda actividade económica mais importante do Estado de Goa, logo a seguir ao turismo.
Como consequência desta actividade, a paisagem marítima de Goa alterou-se substancialmente nos últimos anos e, ao longo da avenida marginal de Pangim, pode observar-se o movimento fluvial quase contínuo das barcaças do minério que descem ou sobem o rio Mandovi.
No promontório da Aguada e sobre o mar Arábico, o nosso olhar detecta várias dezenas de navios mineraleiros fundeados ao largo, a aguardar a chegada das barcaças com o minério que seguirá para a China, para o Japão e para a Europa.
Durante o período mais intenso da monção (Junho a Agosto), todo este movimento cessa, porque as condições marítimas se deterioram substancialmente. No entanto, por vezes são desafiados os limites de segurança e o que aconteceu ao N/M River Princess é um exemplo: encalhado no dia 6 de Junho de 2000 na praia de Candolim, lá continua no mesmo local a lembrar alguns dos riscos adicionais da actividade mineira.
O N/M River Princess encalhou na praia de Candolim na noite de 6 de Junho de 2000 e, dez anos depois, ainda continua a simbolizar uma das consequências nocivas da actividade mineira.
Os ambientalistas queixam-se da delapidação que a exploração mineira está a provocar em cerca de 14% do território de Goa, ameaçando aldeias, poluindo a água e inviabilizando a cultura do arroz, mas ainda se queixam mais porque todo o minério de ferro de Goa é exportado para o estrangeiro, pelo que reclamam pelo encerramento das minas.
Segundo os ambientalistas e outros activistas a exploração mineira está a destruir o território de Goa e apenas está a contribuir para o desenvolvimento da economia da China, para o financiamento do governo federal de Nova Delhi e para os elevados lucros das companhias mineiras privadas, dando apenas um escasso contributo de menos de 1 por cento para as receitas totais do Estado de Goa.
Sobre a riqueza mineira de Goa é muito curiosa a observação expressa pelo Capitão de Fragata Augusto Eduardo Neuparth, engenheiro hidrógrafo e comandante da canhoneira Sado, num “Estudo sobre o rio Mandovy” que apresentou em Janeiro de 1909:
Se algum dia se conseguir o aproveitamento da laterite que constitui a quase totalidade do solo da nossa Índia pode afoitamente dizer-se que a India portuguesa em relação à sua área, será o paiz mais rico do mundo.


2 comentários:
Ah grande Costinha, tu nunca me enganaste...!! Não pude deixar de seguir atentadamente os teus postais, os quais me deixaram fascinados não só pelo interesse dos seus temas mas também pela forma simples acessível e corriqueira como os mesmos foram realizados.
Uma resenha histórica cheia de mérito. Parabéns ao historiador!
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