segunda-feira, 17 de maio de 2010

Postal de Goa (XXVI)

O CANHÃO DE BENASTARIM

A zona ocidental da cidade de Pangim, que se desenvolve ao longo da marginal que acompanha o rio Mandovi até à sua foz no mar Arábico, é conhecida por Campal ou Campal de D. Manuel.
No Campal, à beira da avenida, encontra-se a peça ou canhão de Benastarim, que é um troféu de guerra mas que, sobretudo, é uma notável obra de arte.

O canhão de Benastarim, vendo-se ao fundo a estátua do Dr. Francisco Luís Gomes

Afonso de Albuquerque tomou definitivamente Goa em 25 de Novembro de 1510, mas alguns meses depois seguiu para Malaca que veio a conquistar em 1511.
Aproveitando a sua ausência de Goa, as tropas de Adil-Khan quiseram retomar a cidade e invadiram a ilha de Goa, tendo ocupado o forte de Benastarim, situado no extremo oriental da cidade.
Quando regressou de Malaca, o governador tomou a iniciativa de retomar o forte, o que conseguiu no dia 2 de Abril de 1512, tendo-o então baptizado com o nome de Fortaleza de S. Thiago.
O forte era guarnecido por várias peças de artilharia e, entre elas, encontrava-se um grande pedreiro “de 16 1/2 palmos de comprimento e de 14 polegadas e 3 linhas de calibre, construído de barras de ferro, da espessura de uma polegada, abraçadas por fachas de bronze”. A enorme peça de origem muçulmana lá permaneceu durante muitos anos, enquanto o forte de S. Thiago veio a ser abandonado.
Através de uma carta régia, em 1774 o Marquês de Pombal deu importantes instruções para o Estado da Índia no sentido de reorganizar a sua administração, o seu comércio e a sua defesa militar.
Em relação à defesa militar, o governador da Índia foi instruído com bastante pormenor, tendo-lhe sido referido que na fortaleza de S. Thiago havia 16 peças e “uma delas do género de canhão de disforme grandeza”.
Só em 1839, o 87º governador da Índia, Manuel José Mendes, Barão de Candal, decidiu que esse canhão – o canhão de Benastarim ou Mourisca - fosse removido dos escombros do baluarte onde estava na fortaleza de S. Thiago, para as instalações do Arsenal da Marinha em Velha Goa.



O Arsenal da Marinha foi formalmente extinto em 1856 e passou a chamar-se Arsenal do Exército, mas só sobreviveu até 1871.
Em data que se desconhece, o canhão de Benastarim foi colocado no Campal, na zona ocidental da cidade de Pangim, em espaço ajardinado.
No Museu Militar de Lisboa existem várias peças de artilharia de grande dimensão, designadas por espalhafatos, que foram fundidas em Goa no século XVI e que lançavam pelouros de mais de 100 kilos.
No entanto, desconhece-se porque razão o canhão de Benastarim nunca foi enviado para Lisboa, mas seguramente que foi por ser “um canhão de disforme grandeza”, como a ele se referiu o Marquês de Pombal nas suas Instrucções de 10 de Fevereiro de 1774.

1 comentário:

O Jorge Lourenço Goncalves disse...

Que história tão interessante! Obrigado, Adelino! Um abraço!