Ainda a contas com as Contas
A propósito de um soneto aqui dado à estampa há uns tempos atrás, resumem-se as três versões conhecidas até à data:
VERSÃO TRAZIDA PELO ENTÃO COM. LEÃO DOS
ANJOS
(Soneto com data de 1790 com o qual um frade administrador
de uma fazenda de gado na ilha de Marajá (Estado do Pará – Brasil) respondeu ao
Geral da Ordem, que o intimara a prestar contas em prazo de tempo por lhe ter
constado que ele as não tinha muito regularizadas.)
(Segundo o Com. Leão dos Anjos, copiado de um livro velho sem
capa nem rosto, ignorando-se portanto o autor):
O tempo de si mesmo pede conta,
Porque chega da conta o breve tempo.
Mas quem gastou sem conta tanto tempo
Como dará, sem tempo, tanta conta?
Não quer levar o tempo tempo em conta,
Pois conta se não faz de dar-se o tempo,
Quando só para a conta houvera tempo
Se na conta do tempo houvesse conta.
Que conta pode dar quem não tem tempo?
Em que tempo dará quem não tem conta?
Que a quem a conta falta, falta o tempo.
Agora sem ter tempo e sem ter conta
Sabendo que hei-de dar conta do tempo
Vejo chegado o tempo de dar conta.
OUTRA VERSÂO, (descoberta pelo OCeano
Brito Valle)
(Soneto, obra prima do trocadilho, escrito no século XVII,
por António Fonseca Soares.
Frei António das Chagas, de seu nome António da Fonseca
Soares, também conhecido por Padre António da Fonseca, (Vidigueira, 25 de Junho
de 1631 – Varatojo - Torres Vedras, 20 de Outubro de 1682) foi um frade
franciscano e poeta português):
Deus pede estrita conta de meu tempo.
E eu vou, do meu tempo, dar-lhe conta.
Mas, como dar, sem tempo, tanta conta,
Eu, que gastei, sem conta, tanto tempo?
Para dar minha conta feita a tempo,
O tempo me foi dado, e não fiz conta.
Não quis, sobrando tempo, fazer conta.
Hoje, quero fazer conta, e não há tempo.
Oh, vós, que tendes tempo sem ter conta,
Não gasteis vosso tempo em passatempo.
Cuidai, enquanto é tempo, em fazer conta!
Pois, aqueles que, sem conta, gastam tempo,
Quando o tempo chegar, de prestar conta
Chorarão, como eu, o não ter tempo...
AINDA OUTRA ENVIADA PELO ENCARNAÇÃO
GOMES
(Da
autoria de frei Castelo Branco, frade arrábido do sec. XVII):
Deus nos pede do tempo estreita conta
é forçoso dar conta a Deus do tempo!
Mas como dar, do tempo, tanta conta
se se perde sem conta tanto tempo?!
Para fazer, a tempo, minha conta
dado me foi, por conta, muito tempo.
Mas não cuidei no tempo e foi-se a conta,
eis-me agora sem conta... eis-me sem tempo
Oh vós, que tendes tempo e tendes conta,
não o gasteis, sem conta, em passatempo,
cuidai, enquanto é tempo, em terdes conta
Ah ! se quem isto conta do seu tempo
tivesse feito, a tempo, apreço e conta,
não chorava, sem conta, o não ter tempo


1 comentário:
É claro que estes sonetos nada têm a ver com os colaboradores, para mais voluntários, do espólio do Curso.
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