domingo, 28 de fevereiro de 2021

E venha um Imediato com relógio

 

 

O Destacamento era ainda relativamente periquito na Guiné. Estávamos em Ganturé, na margem Norte do rio Cacheu, e realizávamos operações em que desembarcávamos e reembarcávamos nas margens desse rio ou dos seus afluentes. Por norma, os desembarques efectuavam-se de noite e numa zona de tarrafo denso (a designação correcta, de acordo com o dicionário, é tarrafe). O Imediato do destacamento era um jovem e destemido oficial a quem competia, sempre que o seu grupo de combate seguia à frente, abrir o caminho. Era por isso normal que muitas vezes experimentasse dificuldades e ficasse preso no intrincado das raízes, troncos e ramos do tarrafo.

Num desses desembarques, deixou que o seu relógio Aquastar, que a Marinha distribuía aos oficiais fuzileiros, ficasse preso num ramo, partisse a correia e se perdesse no lodo. Redigida a respectiva ocorrência, esta mereceu um lacónico despacho de "Abata-se" que, como era do normativo, foi comunicado ao Comando da Defesa Marítima que o homologou com um também lacónico “Concordo”. Ora aconteceu que, duas ou três operações depois, ocorreu o mesmo incidente, o Imediato perdeu o novo relógio que lhe tinha sido atribuído. Nova redacção de ocorrência, de novo o lacónico despacho: "Abata-se", nova nota a comunicar o ocorrido e a solicitar a concordância com o respectivo abate.

Só que, desta vez, o despacho não só não foi homologado como em resposta recebemos uma nota assinada pelo do 2º Comandante da Defesa Marítima, que realçava o facto de o relógio ser um objecto da fazenda pública, merecedor de cuidados especiais, que a perda de dois relógios num tão curto período e pelo mesmo oficial revelava pouco cuidado e mesmo algum desleixo, pelo que devia justificar com maior detalhe o seu abate ao inventário.

Comecei a andar a matutar na forma de responder ao que me era pedido. Apesar de estar há poucos meses na Guiné, andava já às turras com a burocracia de Bissau e a sua dificuldade em compreender que os Destacamentos de Fuzileiros não tinham orgânica e estrutura com a mesma capacidade para responder às exigências administrativas e burocráticas dos outros tipos de unidades navais ou mesmo de uma Companhia de Fuzileiros. Os Destacamentos eram constituídos simplesmente por 80 combatentes. Todas as respostas administrativas e burocráticas que íamos encontrando para as situações que enfrentávamos eram improvisadas e de puro desenrascanço naval.

Ao fim de algum tempo de maturação redigi uma nota justificativa em que procurava passar, com uma pequena ponta de azia humorada à mistura, o que faziam os destacamentos e como os materiais se podiam extraviar. Guardei uma cópia entre os papéis que trouxe comigo da Guiné. Alguns anos depois, um camarada e amigo que a tinha lido em Bissau quando estava a prestar serviço no Comando da Defesa Marítima da Guiné e por várias vezes a comentara comigo, pediu-me insistentemente para a encontrar. Encontrei-a e emprestei-lha para tirar uma cópia, mas como ele estava em serviço fora de Lisboa não ma devolveu imediatamente. Eu esqueci-me, ele possivelmente também a foi guardando entre os seus papéis. Despediu-se inesperadamente da vida fora de tempo, eu perdi um amigo e a nota também desapareceu. Mas vou tentar reproduzi-la, porque de tantas vezes falar nela guardei-lhe os traços principais.

Começava com uma introdução que pretendia didáctica:

 

"O tarrafo ou tarrafe é uma vegetação do tipo arbustífero (Rhizophora racemosa) da família das Rizoforáceas, que se encontra nas zonas lodosas das orlas de marés nas margens de rios da Guiné. No rio Cacheu e seus afluentes as duas margens estão quase completamente cobertas por estes arbustos que formam uma mata por vezes muito densa, atingindo alturas consideráveis. Em alguns locais esta densa cobertura vegetal de tarrafo é interrompida por clareiras nas quais só há capim e pouca vegetação dispersa.

Embora estas clareiras possam parecer os locais mais fáceis para os desembarques dos fuzileiros quando são lançados em operações nas margens do rio Cacheu ou dos seus afluentes, não são por norma utilizadas porque podem estar minadas pelo inimigo. Pode também acontecer terem sido minadas pelas nossas forças, para impedirem a passagem do inimigo para o interior do território da Guiné e, mesmo quando os campos de minas são levantados, sabemos que podem lá ficar algumas por se terem movimentado com as marés, ou ficarem perdidas ou mesmo esquecidas. E, por vezes também se ouvem rumores da existência, por estes lados, de campos de minas não assinalados.

Por estas razões os Destacamentos escolhem para desembarcar zonas de tarrafo denso. Os desembarques ocorrem quase sempre durante a noite e de preferência em noites sem lua e o mais escuras possível. Desta forma o desembarque de um Destacamento constitui um enorme desafio físico para os homens que se têm de deslocar no lodo por entre um emaranhado de raízes, troncos e ramos, tendo quase sempre de subir pelas árvores até alturas consideráveis. Nesta progressão, que seria um enorme desafio mesmo para qualquer ginasta olímpico, os fuzileiros ficam constantemente presos nos ramos e caem de grandes alturas embatendo várias vezes na ramagem antes de aterrarem no lodo. Quando chegam ao lodo, depois de uma queda forçada e muito sacudida, para além de serem imediatamente atacados por enormes formigas que lhe sobem pelas pernas e se vão acolher junto da carne tenra dos órgãos sexuais, região do corpo humano porque parecem nutrir uma especial apetência e onde se fixam com as suas fortes presas, constatam que perderam a boina, a espingarda, o cinturão com as cartucheiras, a faca, o cantil e o próprio relógio que, por ficarem presas num qualquer ramo, se soltaram ou partiram. Destes objectos a espingarda e o cinturão com os seus acessórios acabam, com maior ou menor esforço, por ser quase sempre encontrados, tanto mais que são ferramentas indispensáveis para a continuação da operação. A boina, também é muitas vezes recuperada porque costuma ficar pendurada num ramo. Já o relógio, quando a correia se parte, afunda-se irremediavelmente no lodo. Em resumo, de todo o material que um fuzileiro transporta nas operações só o fato camuflado e as botas não correm o risco de se perderam porque estão bem presas ao corpo usador.

Na operação "Carapau", a que se refere a ocorrência em questão, o Destacamento desembarcou, noite cerrada, num local que se revelou ser muito denso e de difícil progressão, tendo sido necessárias cerca de três horas para todos os homens se desembaraçarem do tarrafo, atravessarem a bolanha e chegarem à orla da mata.

O oficial Imediato, portador do relógio, objecto da proposta de abate, comandava o primeiro grupo de combate, sendo o segundo homem e muitas vezes o primeiro na coluna a abrir caminho, correndo muito mais riscos de quedas e acidentes do que os que lhe seguiam as passadas. Foi o que aconteceu numa das muitas quedas que sofreu, quando a pulseira do relógio se prendeu num ramo, se partiu e o relógio caiu no lodo e desapareceu.

Em face do exposto, solicito o abate do relógio referido na ocorrência."

 

A nota foi expedida e a resposta demorou mais tempo do que o normal. Finalmente recebemos uma nota com o despacho do 2ª comandante: "Abata-se. Não se distribua mais nenhum relógio ao oficial referido na ocorrência".

 

Deixo à imaginação de cada um, os comentários, a animação e o riso que este despacho proporcionou à dezena de oficiais da Marinha e do Exército que se encontravam por aquelas paragens. Se, até à chegada do despacho, a questão era só do meu conhecimento e do Imediato, a partir daqui toda a troca correspondência passou a ser o facto do dia nas messes da BAPATGANTURÉ, na câmara da LFG atracada na ponte-cais e passou muito rapidamente para o pessoal do COP3 e da Companhia do Exército sedeados em Bigene.

 

Para mim, a questão que se me colocava era a de saber como é que o imediato ia cumprir as suas funções sem relógio. E para mais, temia que ele viesse também a perder o seu muito estimado ROLEX, oferecido muito carinhosamente pela sua mulher alguns dias antes da partida para a Guiné e que vinha a usar nas últimas operações. Depois de alguma ponderação, pedi para me trazerem o bloco de mensagens e redigi uma mensagem para o Comando da Defesa Marítima da Guiné nestes termos:

 

"SEU (número e data da nota do despacho do 2ª COM). ACTIVIDADE OPERACIONAL DESTACAMENTO EXIGE OFICIAIS TENHAM ACESSO PERMANENTE A HORA LOCAL. MOTIVOS OPERACIONAIS SOLICITO ENVIO IMEDIATO UM IMEDIATO COM RELÓGIO".

 

PS – O Imediato não voltou a perder mais nenhum relógio. Confessou-me, muitos anos depois, que à cautela mandava sempre os seus camuflados a um alfaiate para lhe fazer um bolso com fecho éclair na parte interior do casaco e que, antes dos desembarques, guardava lá o relógio só o voltando a pôr no pulso quando chegávamos à mata.

 

7 comentários:

O J.N.Barbosa disse...

Uma bela história para um domingo de sol.

O Jorge Lourenço Goncalves disse...

Delicioso!
Continua com a tua veia de contador de estórias!
Forte abraço 🤗

O Luís Silva Nunes disse...

Uma "estória" bem instrutiva (sob vários aspectos) ... a "burrocracia" também foi à guerra!!! Parabéns ao autor!

O José Cruz disse...

1 - A estória é omissa quanto ao fornecimento ou não de um imediato com relógio, face ao teu pedido.
2 - Foi pena não te teres lembrado de pedir uma alteração ao plano uniformes aproveitando a ideia do teu imediato; a Fazenda Naval teria poupado eventualmente outros relógios.

O Curso OC disse...

Recebida do nosso camarada da FA, Cor. Luís Fraga:

Camaradas e Amigos,

Mais uma deliciosa estória que nos arranca aqui e agora, no mínimo, um largo sorriso conforme se vai lendo o texto, mas que, após acabada a leitura nos obriga a uma meditação cuidada. Tentarei dar-vos conta da minha, se não levarem a mal.
A imbecilidade do 2.º Comandante era - desculpem-me - monumental. Esta estava de acordo e em consonância com a alvura do seu uniforme, talvez pouco suado, que usava em Bissau. Merecia uma boa partida, se alguma vez se deslocasse a uma instalação de Fuzileiros, para "aprender" o que era uma operação como a descrita! Ainda por cima, quando estava em causa o voluntarismo e o excelente exemplo do imediato.
Mas fico, também, a pensar no muito que falta contar da chamada "pequena História" para se perceber o que foi, realmente, a guerra e a arrogante e ignorante distância dos que, na retaguarda, a comandavam e os que, no mato, a faziam. São episódios destes que nos ajudam a perceber que jamais a revolta contra a ditadura podia ser levada a cabo por oficiais de elevada graduação.
E pronto. Fico por aqui na minha reflexão.
Parabéns ao autor de mais este magnífico relato.
Um abraço, camaradas, com votos de boa saúde para todos.

--
Luís Alves de Fraga
Coronel reformado da Força Aérea

O Jorge Lourenço Goncalves disse...

Não sei a identidade do 2º Comandante para classificar a sua imbecilidade em consonância com a alvura do seu uniforme...

O Curso OC disse...

Recebido o seguinte comentário:
"Meus caros
Nos tempos que passei na Guiné fiquei com a sensação que, proporcionalmente, a peça de equipamento que mais era perdida no mato era o relógio. Dizia -se também, à boca pequena, que alguns deles por sorte eram, mais tarde, achados em Lisboa.
Estou em crer que o 2º comandante de que trata a estória talvez tivesse a mesma sensação do que eu.
Quer - me parecer pois que o comportamento seguido não justifica a classificação de imbecil.
Abraço amigo do E. Gomes

P.S. Como já então não usava relógio o que me foi atribuído, no destacamento, nunca o cheguei a, usar."