quarta-feira, 7 de abril de 2021

“Obviamente, vamos andar à porrada com eles!”

Estávamos já na fase final da nossa comissão na Guiné. O DFE 8 estava sedeado em Ganturé. A actividade do PAIGC vinha a crescer nos últimos tempos, manifestando-se pelo aumento do número de cambanças detectadas e interceptadas no rio Cacheu e também pelos vestígios da passagem de colunas logísticas e da presença de grupos armados no corredor do Sambuiá onde, embora não os encontrássemos muitas vezes pela frente nos nossos frequentes patrulhamentos e também eles não nos emboscassem, a nossa presença na área era sempre assinalada com tiros de aviso.

Um dia, a meio da manhã, sou chamado para ir com urgência falar com o Comandante do COP 3 no campo de aviação. Quando lá cheguei encontrei-o a conversar com um oficial da Força Aérea que aterrara pouco antes, depois de ter feito um reconhecimento aéreo na região do corredor do Sambuiá e Guidage. O que avistara, vestígios de muita movimentação de pessoal e material junto da fronteira, já dentro do território da Guiné, indicava estar a preparar-se uma próxima cambança para o interior do território e, por isso, resolvera dar conhecimento de viva-voz ao responsável do sector.

Depois de me terem assinalado na carta os locais onde se situavam os sinais das movimentações, o Comandante do COP deu-me instruções para o Destacamento fazer, nessa noite, uma operação com o objectivo de bater a zona e capturar o pessoal e material que estivessem a preparar para a cambança.

Regressado à base, começamos a planear a operação e achamos por bem reforçar o armamento do Destacamento com mais duas MG42 do que o habitual, mas não as tínhamos disponíveis na Base. Como nesse dia à tarde, vinha a Bigene o avião da Marinha trazer o correio, enviei para o Comando da Defesa Marítima uma mensagem de elevada precedência e em claro, solicitando o envio de duas MG42 nesse avião. E, realmente, apesar do pouco tempo que mediava entre o pedido e a saída do avião, o armamento chegou a Bigene nessa tarde.

Planeamos a saída do destacamento de forma a desembarcarmos antes da meia-noite para fazermos uma aproximação cautelosa e sem sermos detectados ao local onde se encontraria concentrado o pessoal e material do PAIGC. Como era hábito, o pessoal preparava-se nos seus abrigos e, um a um, iam chegando ao bar onde, conversando e bebendo uma cerveja, esperavam pela hora do briefing que fazia sempre, antes da partirmos para a ponte-cais onde embarcaríamos para a operação. Eu, costumava vestir-me e preparar-me com muito tempo de antecedência, ir até à messe tomar um café, beber um whisky e fumar uma cachimbada, enquanto ia olhando para a carta e tentando prever o que poderia acontecer. Quando tudo estava pronto, o Imediato vinha chamar-me e seguia com ele para o briefing.

Estava, então, nesse momento de reflexão e espera, quando o telegrafista me traz uma mensagem do CDMG. Nela, informa-se que o armamento pedido fora enviado no avião e solicita-se que justifique o pedido. Àquela hora da noite, prestes a sair para o mato, não me apetecia nada responder à mensagem e pensei em deixar isso para o dia seguinte depois de regressar da operação, tanto mais que a mensagem tinha a precedência mais baixa. Mas o telegrafista que devia ter tomado conhecimento do seu teor ao recebê-la, ficou parado à minha frente com o bloco de mensagens na mão, à espera de uma resposta.

O autor do pedido de justificação era, naturalmente, o Chefe do Estado-Maior do CDMG. O nosso curso, tinha-o conhecido bem como Comandante da Companhia de Alunos da Escola Naval. O Comandante Lencastre, desde que chegou à Guiné, já a comissão do Destacamento ia adiantada, foi um forte e permanente apoio com que os Fuzileiros sempre contaram. Preocupava-se com as nossas necessidades, informava-se das dificuldades que enfrentávamos no relacionamento com os Comandos Operacionais, tinha sempre em consideração as nossas dificuldades administrativas. Os relatórios das operações que enviávamos, para informação, ao CDMG e que, até aí, não tinham qualquer feedback, passaram a ser objecto de uma informação de retorno, muitas vezes crítica quanto à nossa actuação, mas que nos ajudava junto dos Comandos Operacionais a defendermos pontos de vista sobre a utilização dos fuzileiros que não eram em geral tidos em conta. Em resumo, a sua chegada à Guiné, significou, pelo menos para mim, o abrandamento do sentimento da que a Marinha se alheava dos Fuzileiros, fazendo-nos sentir um fardo que só criava dificuldades e perturbava o normal funcionamento dos serviços. No entanto, é preciso acrescentar que, compreendendo as nossas dificuldades, as nossas falhas e procurando satisfazer as nossas necessidades, o Comandante Lencastre era extremamente rigoroso e exigia sempre da nossa parte uma explicação cabal para as solicitações que fazíamos ou as falhas e erros que cometíamos. Por isso compreendi imediatamente que ao receber o pedido de mais armas, mesmo sabendo que o destacamento estava nessa ocasião com a sua dotação completa, não teve qualquer hesitação em accionar a pedido, mas, imediatamente, também exigiu uma justificação.

Depois de preencher o cabeçalho da mensagem, fiquei bloqueado na redacção do texto justificativo, não me vinha à cabeça uma resposta suficientemente curta e lógica para esclarecer a necessidade e justificar aquele pedido inopinado de mais armamento. Entretanto, entra na messe o Imediato que informa que o pessoal está pronto. Tinha de me despachar depressa e as palavras não me apareciam. Até que, num impulso acabei por escrever o texto da mensagem: "SEU … OBVIAMENTE VAMOS ANDAR A PORRADA COM ELES". Assinei, entreguei o bloco de mensagens ao telegrafista, peguei na G3 e fui para o bar fazer o briefing.

Contaram-me, uns dias depois, numa curta ida a Bissau, que o Comandante Lencastre recebeu bem-humorado a resposta e até andou a mostrá-la a alguns camaradas, observando que era o que podia acontecer quando se faziam perguntas deslocadas e fora de tempo (perguntas parvas, assim me relatou um camarada). Quando me fui apresentar, recebeu-me com um sorriso irónico e uma frase: “obviamente … as armas não servem para outra cousa!”.

Muitos anos depois, já almirante e reformado, quando vinha à Academia da Marinha, subia muitas vezes ao andar de cima e vinha até ao meu gabinete no CNED conversar, recordando algumas das situações vividas naquelas terras. Entre outras, gostava, especialmente, de recordar esta mensagem, o aparecimento e as aventuras do burro Comodoro e uma rocambolesca história que designava, ironicamente, como a revolução marxista da Ganturé, que espero contar um dia (se a tanto me ajudar o engenho e a arte).

5 comentários:

O Jorge Lourenço Goncalves disse...

Ganda Selva!
Cada vez estás melhor escritor!
Grande abraço

O speedy disse...

Fonte inesgotável de descrição operacional com o humor típico do Selva. Espero que ainda tenha pachorra para relatar os seus diálogos com o COP 3, um famoso major que comandou a polícia de choque nos movimentos estudantis de Lisboa.

O José Cruz disse...

Outro saboroso e magnífico relato, que nos faz estar a "ver" o autor, com o olhar que todos lhe reconhecemos, calmo, de cachimbo fumegando, passando para o bloco de mensagens o texto referido.
Venham mais destas... ou doutras.

O Luís Silva Nunes disse...

Muito bem ... gostei. Abraço.

O José Aguilar disse...

Mais uma bela história bem contada. Como diria o outro, eu estava lá e palpita-me que nesta como noutras ocasiões terei sido eu a "caçar o Pombo" para que o avião fizesse esta rápida missão logística. E não digo "bons tempos" porque de bom não tinham nada a não ser a camaradagem.