domingo, 9 de janeiro de 2022

A LFG "…" TAMBEM LA ANDOU

Quando recordo os tempos em que vivi na Base de Patrulhas de Ganturé (BAPATGANTURE),no Norte da Guiné, recupero sempre alguns Destacamentos de Fuzileiros, as LFG's (Lancha de Fiscalização Grande), as LDM’s (Lancha de Desembarque Média) que patrulhavam o rio Cacheu, os botes correndo o rio a toda a força dos seus motores fora de borda ou derivando silenciosamente com as correntes da maré, os militares do Exército e as populações que se encontravam em Bigene, Tabanca Nova, Binta e Barro e, obviamente, os encontros e desencontros com os guerrilheiros do PAIGC e as populações sob o seu controlo.

A presença de uma LFG atracada na ponte-cais de Ganturé ou navegando no rio, fazendo ouvir os seus motores e o poder de fogo das suas Boffors, quando passavam por uma clareira, apoiando um reembarque depois de uma operação, largando botes que depois desciam ou subiam o rio à deriva e emboscavam no tarrafo junto de uma clareira, foi uma constante nos meses em que o DFE 8 esteve estacionado em Ganturé, atribuído ao COP 3 (Comando Operacional nº 3). Ao longo desses meses, a actividade operacional e a convivência diária foram estreitando afinidades e laços de amizade que muitas vezes vinham desde os tempos da Escola Naval.

Com todas as LFG's, o DFE 8 viveu muitos acontecimentos de boas e más memórias, foi transportado ou recolhido em operações, embarcou com todo o seu equipamento para um ou outro aquartelamento e também convivemos longas horas com camaradas e amigos. Mas há camaradas, acontecimentos e momentos que nos deixaram marcas que recordamos com mais frequência e afectividade.

Foi o que aconteceu, quando, um dia destes ao folhear alguns dos papéis que guardo dessa época, encontrei uma curta e lacônica mensagem, enviada no rescaldo de uma operação realizada na margem Sul do rio Cacheu, que me recordou um episódio em que um dos intervenientes foi um saudoso amigo, na altura Comandante de uma LFG. No rasto desta memória foram surgindo muitas outras relacionadas com a ligação estreita que os Destacamentos de Fuzileiros estabeleciam com as LFG´s e LDM's que estavam em missão no rio Cacheu.

O DFE 8 cruzou-se várias vezes com essa LFG durante a sua comissão na Guiné. Foi ela que nos foi recolher a Buba e nos acarinhou e alentou depois de uma operação desgastante que o General Spínola determinou como correctivo para supostos comportamentos menos correctos de um marinheiro do destacamento. Recordo, também, uma outra situação, na região da Caboiana, perto de Vila Cacheu, quando o destacamento caiu numa emboscada que provocou vários feridos e nos encontrávamos em dificuldades para os tratar e evacuar. A LFG, que regressava a Bissau depois de terminar a sua missão em Ganturé, estava já a sair a barra, mas ao aperceber-se, através das comunicações interceptadas, do problema que enfrentávamos e ter entrado em contacto rádio conosco, alterou imediatamente a sua rota e veio esperar na foz de um afluente do Cacheu um bote onde tínhamos conseguido embarcar os feridos, transportando-os para Vila Cacheu onde lhes prestaram os primeiros socorros e de onde foram depois evacuados para Bissau.

Mas vamos então à estória da mensagem. Tudo começa num reembarque em botes num dos afluentes do rio Cacheu, depois de uma operação em que se assaltou um acampamento do PAIGC. O grupo de combate que seguia à frente do Destacamento atravessou uma bolanha com cerca de 300 metros para estabelecer a ligação com os botes, enquanto o grupo de comando e o segundo grupo montavam segurança na orla da mata. Estabelecida a ligação com os botes o pessoal que estava na mata arrancou rapidamente seguindo o trilho aberto no capim pelo primeiro grupo. Quando estávamos a meio caminho rebentou, da orla da mata, ao lado do local que acabávamos de abandonar, grosso tiroteio de armas ligeiras e RPG na nossa direcção. Cada um procurou o abrigo possível e tentamos responder. No entanto, os guerrilheiros, que eram numerosos, não se calavam, a nossa posição no terreno não oferecia grandes abrigos e a situação ficou mesmo muito desconfortável. Entretanto, o 1º grupo, que já tinha embarcado nos botes, volta para terra procurando envolver a posição ocupada pelo IN. Logo que alcançaram um local favorável, abriram fogo o que permitiu que o grupo que tinha sido emboscado, reagisse e regressasse à mata. Nesta nova situação, os guerrilheiros apesar de terem ficado debaixo de dois fogos não se calaram. Mas, pouco depois, foi possível juntar ao nosso fogo o dos obuses de Bigene, porque, entretanto, um marinheiro subiu para uma árvore de onde conseguia dominar todo o cenário, chamou-me e, lá de cima, pude facilmente regular os obuses de Bigene. Ao fim de duas obuzadas os guerrilheiros estavam enquadrados e com mais dois ou três disparos dispersaram.

Entretanto o grupo dos botes tinha navegado algumas dezenas de metros rio acima, tendo alguns homens saltado em terra e conseguido também fazer fogo sobre o grupo de guerrilheiros.

O patrão da LDM que se encontrava a pairar na foz do afluente do rio Cacheu à nossa espera para nos transportar até Ganturé, ao aperceber-se do tiroteio que vinha do interior, decidiu entrar resolutamente no rio pronto a intervir e apoiar no que fosse necessário.

A LFG que navegava por perto, mal ouviu os primeiros sons do combate que se estava a travar, dirigiu-se para a foz do afluente do rio Cacheu, pronta para intervir em caso de necessidade.

Era assim que sempre reagiam as forças navais que se encontravam em Ganturé e que tinham o rio Cacheu como teatro de operações. Ao primeiro sinal de combate no rio ou em terra todas acorriam, a toda a força dos motores e das máquinas, ao local onde se estava a travar o combate prontas a apoiar a unidade que estava em acção (a embrulhar … como dizíamos na gíria local).

Com todos ilesos, acabamos por reembarcar directamente para a LDM que penetrara no braço do rio e abicara para nos recolher. Escoltados pelos botes chegamos ao rio Cacheu, onde nos esperava a LFG. Todas as forças regressaram num alegre, improvisado e desorganizado comboio naval a Ganturé com a sensação de alívio por termos saído sem mossas daquela situação complicada.

Depois de um banho retemperante e de vestir roupa lavada, dirigi-me para a messe, para beber um café e uma bebida fresca e redigir o habitual e obrigatório RELIN relativo à operação.

Para quem não conhece ou não se lembra do significado do termo, resumo, dizendo que após qualquer incidente que envolvesse as nossas forças e as do PAIGC ou após qualquer operação, logo que possível, era enviada uma mensagem, o RELIN, escrita numa linguagem simples e lacónica a dar conta dos acontecimentos e dos seus resultados em relação ao pessoal e material das nossas forças e das forças do PAIGC. O RELIN era complementado, quando os resultados o justificavam, por um relatório circunstanciado do desenrolar da operação.

Ainda no rescaldo dos acontecimentos que envolveram um razoável número de forças e muitos movimentos, cansado da caminhada que acabara de fazer, a primeira redacção do RELIN saiu muito pouco clara, desarticulada e dando uma ideia de que o granel naquela operação tinha sido muito maior do que o que fora na realidade. Não gostei e tentei uma segunda redacção que apesar de mais completa, escorreita e arrumada, também não me deixou muito satisfeito. Mas, naquela época, já andava sem grande paciência para fazer papéis destinados, a maior parte das vezes, a satisfazer burocracias instaladas e acabarem arquivados num qualquer dossier de um qualquer gabinete com ar condicionado em Bissau. E, por isso, Ah! Que se lixe … vai mesmo assim … e foi!

Jantei, estive algum tempo na roda do bar na conversa e depois fui até à câmara da LFG, tomar um café, beber um whisky, conversar e jogar uma partida de brídege como fazíamos muitas vezes quando a LFG estava atracada na ponte cais de Ganturé e havia parceiros para isso. Contra o que era o seu costume, o Comandante recebeu-me com cara de poucos amigos e logo me interpelou, rispidamente, pelo facto de o RELIN que eu tinha enviado não fazer qualquer referência à acção da LFG na operação. Dizia-me, com ar zangado, que quem o lesse ficaria a pensar que o navio tinha permanecido calmamente atracado na ponte cais, enquanto a algumas centenas de metros estava a decorrer uma acção de fogo. Penitenciei-me imediatamente, pedi-lhe desculpa pela omissão, mas retorqui-me, sem mudar de humor, que as minhas desculpas não evitavam que quem lesse a mensagem não questionasse a forma como a LFG estava a cumprir a sua missão. Perante este argumento pedi que me arranjassem um bloco de mensagens para reparar imediatamente o lapso. O telegrafista trouxe à câmara uma cópia do RELIM e um livro de mensagens. Reli o RELIM original e procurei encontrar uma nova redacção, que sem mudar muita coisa, corrigisse a omissão. A verdade é que, a cada tentativa mental de nova redacção, a situação embaraçosa e meio caricata em que me encontrava, trazia-me à memória as imagens das correrias e peripécias da manhã e associava-as às cavalgadas dos filmes de índios e cowboys que recordava da minha adolescência nas matinés dos sábados no cinema de Vila do Conde. A este estado de espírito acrescentava-se a adrenalina dos últimos acontecimentos, os cafés e os whiskeys que, entretanto, fora bebendo e que começavam também a fazer os seus efeitos. Não estava mesmo a encontrar uma forma de contornar a mensagem original sem ter de redigir outra completamente nova e, naquela ocasião, sentia-me completamente incapaz de o fazer. Ao fim de algum tempo, a saída foi escrever um aditamento ao RELIN que saiu nestes termos: "ADITAMENTO MEU RELIN "… " A LFG " … " TAMBEM LA ANDOU."

O telegrafista recolheu o bloco de mensagens e foi transmiti-la. Pouco depois, enquanto estávamos em amena conversa, volta à câmara com as cópias da mensagem enviada. Eu dobro a minha sem a ler e meto-a no bolso da camisa. O Comandante da LFG lê-a atentamente, a sua expressão começa a alterar-se, levanta-se e depois … explode … à sua maneira. Por mim, antes que qualquer coisa me caísse em cima, saí a toda a velocidade da câmara e só abrandei quando, depois de descer a prancha do navio, me vi na ponte-cais.

Chegado, são e salvo, à base, anulei todas as mensagens anteriores e redigi um novo RELIN com todos os pormenores da operação ou, como dizemos agora, politicamente correcto. A meio da manhã seguinte, com a intervenção mediadora do Imediato, recebi um convite para ir almoçar ao navio. A fúria (justificada, diga-se) da noite anterior se não se tinha desvanecido, pelo menos abrandara. Naquela LFG, como em todas as outras, os fuzileiros eram sempre bem-vindos e generosamente acolhidos, mesmo quando, ao regressar de uma operação, esgotados, suados, sujos e cobertos de lodo eram recebidos ao passarem da escada quebra-costas para o convés com uma agressiva mangueira de incêndio apontada aos corpos que, não só os limpavam do lodo para não sujarem o navio, como também os começavam a refrescar antes de atingirem o local onde encontravam, à discrição, água fresca para compensar a que desaparecera há muito dos cantis.

8 comentários:

O speedy disse...

Belo relato duma realidade.

O José Aguilar disse...

Espero que continues a deliciar-nos com estas memórias. Só quem viveu as situações pode delas dar uma imagem fiel, e é bom que o faça quem sabe escrever.

O Curso OC disse...

Recebido o seguinte comentário:
"O post do F. da Silva fez-me recordar uma situação ocorrida com um DFE cujo comendante aparentemente tinha opinião contrária à que ele exprime .
Também eu andei pela Guiné numa LFG e também a mim me coube transportar um DFE que terminara um largo período numa zona de combate.
Tal como me haviam feito a mim enquanto fuzileiro resovi mandar preparar uma refeição quente para oferecer ao pessoal do destacamento que iria embarcar e, sabendo por experiência própria que o estado de limpeza geral não seria o melhor , mandei preparar um " arraial " com chuveiros, bem como sabonetes e algumas toalhas que havia em paiol, para que pudessem tomar banho antes da refeição
Pouco depois da chegada a Bissau, o comandante desse destacamento, que regressara de avião ou de helicóptero, apareceu -me a bordo ofendidíssimo pela acção que eu tomara porque significava que eu considerava o seu pessoal como sendo " grandes porcos " ( sic)
Abraço do E. Gomes"

O J.N.Barbosa disse...

Muito bom. As pequenas histórias contribuem muito para a compreensão da história que perdurará.

O Luís Silva Nunes disse...

Muito bem e muito instrutivo principalmente para os que, como eu, nunca se viram nestes trabalhos.

O Jorge Lourenço Goncalves disse...

Magnífico! A tua prosa tresanda a realismo e quase se pode cheirar a pólvora e sentir o lodo que cobria os combatentes.
Continua a deliciar-nos com as tuas memórias...
Pressupondo a tua anuência gostaria de publicar este teu escrito no grupo do FB "Filhos da Escola Naval".
Grande abraço

O A.R.Costa disse...

Bela prosa que nos recorda a faina das LFG e dos DFE na bacia hidrográfica do rio Cacheu. Parabéns ao autor e grande comandante do DFE8!

O José Cruz disse...

Mais uma excelente estória de quem, como tu, andou metido nestas andança, colorida com o estilo delicioso com já nos habituaste e que refresca a memória dos que por lá andaram e desafia a imaginação dos outros.
Felicito-te com um grande abraço e incito-te a continuar.