Num
dos nossos últimos almoços entre muitas recordações dos tempos em que
desfrutávamos das lembranças dos prazeres e vicissitudes da nossa vida de
marinheiros, contaram-se algumas estórias da Guiné, entre elas as do burro
"Comodoro", que foi mascote do destacamento de Fuzileiros que
comandei. A voz da abita atribui-me a mim e ao burro algumas aventuras divertidas,
tendo os camaradas que estavam na mesma mesa insistido para que eu as
escrevesse. Não me sinto vocacionado quer para a escrita memorialística, quer para
a ficcional, mas o confinamento de alguns meses levou-me a tentar fazer
qualquer coisa com essas estórias, umas com um fundo de verdade, outras parcial
ou totalmente ficcionadas, mas que, de alguma forma, retratam o ambiente que
vivíamos na Guiné nessa época das nossas vidas.
E
se para outra coisa não servirem, pelo menos libertarão durante uns dias o
Simões Lopes da necessidade de animar o nosso tão adormecido blogue.
O comodoro em
Gampará
Um burro em Ganturé
A
história conta-se em duas penadas. Ou, atendendo ao contexto, talvez devesse
dizer em duas patadas.
Um
dia, ao levantar-me para tomar o pequeno almoço, vi, pastando pachorrentamente
no meio dos abrigos da base de Ganturé, um burro. À minha interrogação sobre o
que fazia ali um burro, o Imediato disse-me simplesmente: "Foi o pessoal
que o trouxe." No contexto de Ganturé era uma explicação mais que
suficiente e perfeitamente aceitável. O pessoal ia trazendo, adoptando e
tratando toda a espécie de animais: gazelas, macacos grandes e pequenos, papagaios,
cabritos, porcos, cães, patos, etc. Porcos, cabritos e galinhas, então, apareciam
com bastante frequência e quantidade, comprados à população (ou adquiridos por
outras formas menos decentes), mas esses acabavam muito rapidamente no forno ou
dentro de uma panela.
Mas
vamos ao burro, que é o que por agora nos interessa. Há várias estórias a
justificarem o seu aparecimento: que fora largado por uma coluna do PAIGC que
retirou apressadamente quando foi interceptada por uma patrulha de botes; que
fora roubado numa povoação das margens do rio Cacheu; que fora comprado por um
marinheiro numa povoação próxima, etc.… Sobretudo entre os oficiais correu uma
outra versão, totalmente falsa e, diria, um pouco maldosa, de que teria sido eu
a adquirir o burro como mascote do destacamento, em jeito de brincadeira ou
represália, depois de um desentendimento com o Comodoro, Comandante da Defesa
Marítima. Na realidade, o aparecimento do burro no destacamento não se reveste
de grande interesse para as estórias que dele se contam, servindo apenas para
uma alegre e acesa disputa nos regulares almoços do Destacamento, na qual todas
as hipóteses têm autores e acalorados defensores, menos aquela que se me
atribui como protagonista ,porque todo o pessoal do Destacamento sabe que não
tem ponta nem arreata por onde se lhe pegue.
Sobre
o seu baptismo também correm várias versões. Uma delas, aquela que mais
insistentemente se difundiu, em especial entre os oficiais, coloca-me como
padrinho. Não o apadrinhei e, francamente, nos primeiros tempos em que ele
andou por Ganturé, nem sequer sabia o nome por que ele era tratado. A primeira
pessoa que me tocou no assunto foi o Comandante da LFG Orion, o saudoso Coelho
Rita, que no meio de um jogo de brídege na câmara do navio referiu, com o seu
humor característico, o nome que o pessoal estava a dar ao burro. Também achei
piada ao onomástico, mas não lhe atribuí grande significado. Não passava da habitual
prática do pessoal da Marinha de arranjar alcunhas, por norma elucidativas e
com uma certa dose de humor. Eu também fui alcunhado no dia em que entrei na
Escola Naval e, ainda hoje os que me conheceram me tratam por essa alcunha, pelo
que aqui me abstenho modestamente de a repetir.
Durante
os primeiros tempos em que o burro permaneceu em Ganturé, foi “o burro” e
simplesmente “o burro”. Ora o marinheiro que se assumia como dono e tratador do
animal tinha a alcunha de Comodoro, adquirida logo nos primeiros dias da
recruta, quando informou que era da terra de um oficial de Marinha que tinha
esse posto. Ficou “o Comodoro” até hoje, e eu próprio sempre assim o tratei
desde o curso de Fuzileiros Especiais. Era, portanto, “o burro”, “o burro do
Comodoro”, e não passava disso mesmo, embora não deixasse de ser uma mascote e,
por ser exemplar único por aquelas bandas, chamar alguma atenção. Aos poucos, o
burro foi sendo adoptado, tratado e montado por todo ou quase todo o pessoal, tendo-se
tornado popular junto das lavadeiras que todas as manhãs invadiam a base para
trazer a roupa lavada e recolher a suja e se dirigiam sempre ao local em que o
animal se encontrava, a fim de verificarem com os seus próprios (e
provavelmente arregalados) olhos o estado de visibilidade em que se encontrava
o seu proeminente órgão reprodutor, e da população de Bigene, onde costumava
andar livremente pelas ruas principais, acompanhando o pessoal que para lá se
deslocava para espairecer e se distrair. Também o pessoal das guarnições das
LFG's, LDG's e LDM's, que atracavam regularmente em Ganturé, foi travando
conhecimento com o burro do marinheiro “Comodoro”. Com o decorrer do tempo
passou a ser denominado unicamente por "Comodoro". O "Comodoro"
era, em Ganturé, o burro-mascote do Destacamento.
E um dia o burro vai a Bissau e arma granel!
Veio
um dia em que o Destacamento recebeu ordem de marcha para embarcar numa LFG ,
seguir para Gampará, onde ficaria estacionado, com uma paragem de alguns dias
em Bissau. Naturalmente, o burro e as outras mascotes, em especial o macaco “Gâmbia”,
do qual poderei vir a falar um dia, acompanharam a unidade, desembarcando em
Bissau e sendo levados para as Instalações Navais.
Se
o destacamento não tivesse esta passagem por Bissau muito provavelmente não
haveria estórias, tal como aconteceria se ao Comandante da Defesa Marítima da
Guiné não tivesse sido dada (obviamente à boca pequena) a alcunha de
"burro", possivelmente já tão antiga e, para exercermos aqui a
excelsa virtude da caridade, porventura imerecida, e o seu posto na Marinha não
fosse, na altura, precisamente o de Comodoro.
Ao
fim da tarde, quando me encontrava com alguns camaradas numa esplanada a tomar
umas cervejas acompanhadas com a mancarra que os miúdos africanos iam
despejando em cima das mesas logo que se apercebiam de que os pires em que vazavam
as suas doses estavam vazios, vi passar em frente um grupo, bastante divertido,
de alguns marinheiros do Destacamento, um dos quais montado no burro. Ao fim de
alguns meses de mato o pessoal tinha ido desopilar e um burro a passear com
marinheiros nas ruas de Bissau era uma aparição pouco comum e a justificar a
alegria que o grupo parecia estar a viver. Fui jantar um bife ao “Solar do 10”
com os oficiais do Destacamento e o meu irmão, que se encontrava a prestar
serviço no Regimento de Engenharia; demos uma volta pela cidade, fomos beber um
copo à Engenharia e, já tarde, regressámos aos nossos quartos nas Instalações Navais.
Acordar
num quarto só para mim, numa cama, “cama própria”, e não num abrigo em Ganturé,
num beliche com mosquiteiro, tendo a dormir ao meu lado mais um dezena de
camaradas, causou-me um sentimento de estranheza que foi passando à medida que
ia procedendo à minha higiene matinal. Tomei, ao fim de alguns meses de duches
com água à temperatura ambiente, um longo e quente banho, fardei-me e dirigi-me
à messe para tomar o pequeno-almoço. Sentei-me na mesa onde já se encontravam
os esfomeados oficiais do destacamento, desfrutando de uma lauta refeição
matinal. Estávamos em amena cavaqueira, combinando o que iriamos fazer durante
o dia a fim de preparar a partida para Gampará, quando um camarada e amigo se
aproximou da mesa e, com ar sorridente e matreiro, perguntou: «Então, trouxeste
o “Comodoro” a passear a Bissau?», e desandou sem esperar uma resposta. A
pergunta desencadeou entre nós alguns risos, mas despertou-me, ao mesmo tempo, a
atenção para algumas das outras mesas de onde nos eram dirigidos olhares
curiosos e nada discretos. Como havia muito que fazer para preparar o Destacamento,
cada um de nós foi tratar dos seus afazeres. Eu fui para o meu quarto, escrevi
uma carta à minha mulher e passei algum tempo a tentar dar alguma ordem aos
papéis que iam chegando e se acumulavam. Estava nesta tarefa quando o Imediato
me entra pelo quarto dentro e, no seu jeito operacional, dispara: «O 2º
Comandante mandou prender o “Comodoro”; está amarrado a uma corrente junto da
caserna. Temos de o pôr a pastar na bolanha.» Fomos tentar saber o que se
passava. O burro estava calmamente amarrado a uma grossa corrente, rodeado por
vários marinheiros do Destacamento que iam trocando opiniões sobre o que se
estaria a passar. Dirigi-me então ao gabinete do comandante da Companhia de Fuzileiros
responsável pelas Instalações Navais de Bissau, que era um camarada de curso, dotado
de um belo e apurado sentido de humor, que me informou que no dia anterior o
pessoal do Destacamento tinha andado a passear o burro pelas ruas de Bissau, entrando
em lojas com o burro e passado em frente do palácio do Governador; que por
Bissau se comentava o nome do burro; que parece que o próprio General tinha
telefonado para o Comodoro e que em resultado de tudo isso o 2º Comandante lhe
telefonara, logo pela manhã, a dar a ordem de prender o Comodoro. Perante o seu
espanto e a sua pergunta «O Comodoro?», o 2º Comandante teria respondido: «Sim!
O "Comodoro", o burro do Oitavo». E lá estava o burro calmamente
preso a uma grossa corrente de ferro!
Não
havia nada a fazer e, por isso, limitei-me a dizer ao camarada que teria de dar
de comer ao burro o mais depressa possível, retirando-me para os meus afazeres,
não sem antes pedir ao Imediato para avisar o pessoal que a alimentação do
burro iria ser assegurada. Pouco depois aparece-me, novamente, o Imediato a
informar-me de que o 2º Comandante não quer saber da alimentação do burro e
também não o deixa soltar a fim de ir pastar. Vou falar novamente com o comandante
da Companhia e, perante o impasse que parecia existir, ponho-me a caminho do Comando
da Defesa Marítima.
Não
sou bem recebido. O 2º Comandante era conhecido por algumas saídas
intempestivas. Tento ouvi-lo calmamente, entre comentários sobre os
acontecimentos do dia anterior e ameaças sobre o que poderia acontecer se o
burro continuasse a fazer tropelias pela cidade, associando a tudo isto insinuações
de hipotéticas intenções políticas. Depois do seu discurso manifestei a minha
concordância relativamente à necessidade de regular o comportamento futuro do
burro, coisa que, evidentemente, ficaria sob minha responsabilidade, mas, na
impossibilidade de o animal pastar na bolanha, teria de ser encontrada uma
solução para assegurar a sua alimentação. Começou por dizer que não tinha nada que
ver com isso, mas quando, referindo a minha incapacidade para encontrar
alimentação adequada em Bissau, lhe falei da afeição dos marinheiros ao seu
burro, da preocupação que já expressavam por ele não estar a ser
convenientemente alimentado e de isso poder desencadear alguma espécie de reacção
indesejável, deu-me instruções para ir falar com o comandante Figueiredo, chefe
do Serviço de Abastecimentos, no sentido de arranjar palha para o burro.
Conhecia
o comandante Figueiredo desde a viagem de curso na Sagres. Como eu, todos os
cadetes do meu curso ficaram a nutrir por este camarada mais velho uma simpatia
e admiração que durou a vida toda. Recebeu-me com afabilidade e logo, com ar
divertido, exclamou: «Então você têm um burro chamado “Comodoro"? Mais divertido ficou quando lhe dei conta da
tarefa que lhe era encomendada pelo 2º Comandante. «Mas onde vou eu arranjar
palha em Bissau?!» exclamava, sem deixar de rir ao mesmo tempo. Mantendo o
humor, o Comandante Figueiredo, paternalmente, foi-me alertando para os
problemas que poderiam advir do nome do burro. Quando lhe contei que o nome de
“Comodoro” dado ao burro vinha do facto do seu dono e tratador ser um
marinheiro com essa alcunha e que, ao contrário do que se dizia e era também
sua convicção, eu não tinha tido qualquer intervenção no aparecimento do burro
e no seu nome de baptismo, rompeu em gargalhadas. Quanto à palha, teríamos mesmo
de arranjar uma solução, porque o burro tinha de comer qualquer coisa nesse
dia. Ao princípio da tarde é o próprio comandante Figueiredo que me procura
para me dizer que em Bissau não se conseguiu encontrar palha. Eis-me, assim,
obrigado a falar novamente com o 2º Comandante. Depois de lhe explicar a
situação e a necessidade de alimentar o burro, lá concordou em libertar o
animal, mas… eu seria responsabilizado pelas suas eventuais tropelias. No
regresso às Instalações Navais, chamei o Imediato e dei-lhe instruções no
sentido de soltar o burro e assegurar-se de que não haveria mais cenas na
cidade.
E
o burro lá partiu pacificamente para a bolanha, devidamente escoltado por um
marinheiro do Destacamento. No dia seguinte, logo de manhã vêm chamar-me para
ir falar com o camarada que comandava a Companhia. Mal entro no seu gabinete,
com um sorriso aberto e divertido, pergunta: «Ó Selva, já viste a escala de
serviço que está afixada na porta da coberta do teu pessoal?». Perante a minha
negativa, partimos os dois para a coberta. Realmente, afixada na porta estava a
escala de serviço do DFE 8, que numa das linhas contemplava um “plantão ao
Comodoro”. Alguém já tinha soprado o facto ao 2º Comandante, que telefonara
para o comandante da Companhia ordenando a retirada do papel e mandando-me
chamar ao seu gabinete. Retirado o ofensivo papel, enchi-me de paciência para
voltar a ouvir o discurso reprovador do 2º Comandante, a quem reiterei a minha
disposição de não permitir que voltassem a acontecer cenas desagradáveis, mas
também a impossibilidade de me livrar do burro, como ele quase me exigia.
Foi no
fim de todas estas peripécias que o burro, que era, até aí, única, exclusiva e
tão somente um burro e nada mais, o burro do marinheiro “Comodoro”, passou a
ser o "Comodoro", o burro do DFE8.