Um passeio na marginal de Bissau
Uma
outra estória também tem lugar em
Bissau. Afinal, na Guiné de então, só mesmo em Bissau o burro podia dar origem
a uma estória. No mato, por onde normalmente andava, limitava-se a ser um burro
como todos os outros, pastando calmamente durante grande parte do dia e sendo
uma ou outra vez companhia do pessoal nas suas horas de lazer.
Passámos
por Bissau com destino a Gampará, onde iriamos fazer uma segunda temporada. O
tempo de paragem em Bissau era muito curto e foi necessário tratar de inúmeros
pormenores. Levantei um jipe no Serviço de Transportes e durante o dia usámo-lo
intensamente. O pessoal partiu para a ponte-cais e embarcou sem eu ainda me ter
despachado, pelo que acabei por me deslocar até ao cais no jipe e estacioná-lo
num local que achei resguardado e conveniente. Fechei-o e entreguei a chave à
sentinela. Após eu ter embarcado, a LDG largou imediatamente. Nesta nossa
segunda estadia em Gampará, logo no dia seguinte à nossa chegada, no regresso
de uma operação, aconteceu um incidente desagradável entre alguns fuzileiros e
pessoal do exército, e após algumas peripécias que não vale a pena contar aqui,
o Destacamento foi enviado pelo general Spínola para uma operação de castigo
que nos levaria em botes de borracha rio Curubal acima, desembarcando na margem
do rio e percorrendo a pé cerca de 40 quilómetros, em território controlado
pelo PAIGC, até à povoação de Buba. A operação demorou cerca de um dia e meio e
chegamos a Buba esgotados, cheios de sede e esfomeados, mas todos e inteiros.
Dormimos em Buba e na manhã seguinte embarcámos numa LFG com destino a Bissau. Enquanto
navegávamos recebi várias mensagens atrasadas, entre as quais uma, com uma data
de dois ou três dias antes, informando que o jipe de matrícula AP… se
encontrava desaparecido. Parti do princípio de que, entretanto, teria sido
encontrado, porque ficara num local bem visível e a chave nas mãos da
sentinela, pelo que não respondi sequer à mensagem. Chegados a Bissau, depois
de passar pelo meu quarto, tomar um banho e fardar-me, dirigi-me ao Serviço de
Transportes para pedir um jeep como normalmente o fazia. O Sargento encarregado
da garagem, atrapalhado e desculpando-se, diz-me que tinha ordens do 2º
Comandante para não me entregar mais nenhum jipe. Perguntei-lhe se tinham
encontrado o jipe no cais e disse-me que logo no dia seguinte o tinham ido
buscar. A sentinela guardara a chave e viera entregá-la à tarde, mas tinha
havido, durante algumas horas, uma certa confusão por o jipe não ter sido
entregue e se desconhecer o seu paradeiro.
Como
é natural, depois das atribulações dos três dias anteriores não estava com
grande disposição para me pôr a esclarecer mal-entendidos pelo telefone. O
tempo estava bom, não fazia muito calor e resolvi ir a pé pela Marginal até ao
edifício do Comando da Defesa Marítima, como muitas vezes fazia, por ser um
passeio agradável. Mas o diabo por vezes tece-as e tenta-nos, e não é que,
nesse preciso momento, vem passando na parada o burro, conduzido por um
marinheiro, que o ia levar a pastar à bolanha. E pronto … desta vez, não
resisti à tentação. Chamei o marinheiro, fiz duas ou três festas na cabeça do
"Comodoro" e saltei-lhe para o lombo, conduzindo-o na sua passada
calma e compassada pela Avenida Marginal fora. Vieram-me novamente as imagens
inesquecíveis do livro de Cervantes e, embora montado num burro, senti-me desta
vez mais D. Quixote do que Sancho Pança, tanto mais que, ao fim de algumas
centenas de metros, era acompanhado por um grupo de miúdos que se manifestavam
ruidosa e alegremente pelo insólito da situação de verem um oficial da Marinha,
fardado de branco, a passear-se na baixa da cidade montado num burro. Claro que
durante o percurso tive tempo bastante para me aperceber do insólito da
situação e das consequências que dela poderiam advir, mas ao fim de um ano de
mato na Guiné, já não havia volta a dar senão seguir em frente. Como me
justifiquei, uma horas depois, junto do comandante Figueiredo, que andava a
tentar deitar água na fervura que, entretanto, se tinha levantado, o pior que
me poderia acontecer era ir parar a Elvas, e, naquela altura, Elvas surgia
quase como um oásis, decerto mil vezes melhor do que Ganturé, para onde estava
previsto irmos, ou mesmo do que qualquer outro lugar na Guiné.
Mas
voltemos à estória. Chegado à porta do Comando da Defesa Marítima, pedi a um
dos miúdos, o que me pareceu mais assisado, que tomasse conta do burro, e entrei
no edifício. À medida que ia avançando fui-me apercebendo de uma movimentação
anormal de abrir e fechar de portas, a que procurei não dar importância. Fui
recebido pelo Comandante da Defesa Marítima, que estava a par de todas os
pormenores da operação realizada, porque tinha ido de helicóptero a Buba
acompanhado pelo Chefe do Estado-Maior, pouco depois de nós lá termos chegado, terminada
a operação. A conversa foi por isso muito breve. Quando saí do seu gabinete e
me preparava para ir conversar com os camaradas na sala do Estado-Maior,
deparo-me com o 2º Comandante, à porta do seu Gabinete, balançando na mão umas
chaves e dizendo-me para levar o seu jipe e levantar outro no Serviço de
Transportes. Agradeci-lhe, peguei nas chaves e fui fazer as restantes
diligências, tomar um café e dar dois dedos de conversa com os camaradas na
sala do Estado-Maior. Quando saí, amarrei o burro na parte de trás do jipe e regulei
por ele a velocidade, já sem o bando de miúdos a seguir-me, mas alvo dos
olhares curiosos dos transeuntes, seguindo pela Avenida Marginal até às
Instalações Navais, onde me esperava o Sargento, encarregado da garagem, com um
grande sorriso e um jipe pronto para o meu Destacamento.
«Sabes? Os fuzileiros têm um burro que também se chama “Comodoro”»
O
Zequinha, filho de um saudoso camarada, com a traquinice dos seus 3 ou 4 anos,
conversador e atrevido como todas as crianças, era figura bem conhecida dos
frequentadores da messe, e o próprio Comodoro apreciava a sua desenvoltura e não
dispensava chamá-lo para junto do sofá onde se sentava, fazer-lhe uma festa e ter
com ele uma daquelas conversas que se têm com crianças. Um dia, mal o Comodoro
entrou na messe, o Zequinha correu imediatamente em sua direcção, com gestos
largos, enquanto ia dizendo num tom de alegre descoberta: Olha! Sabes que os
fuzileiros também têm um burro que se chama “Comodoro”? Tirando o Comodoro que,
de acordo com o que me contaram, desatou a rir, os circunstantes disfarçaram
como puderam e alguns chegaram mesmo a empalidecer. A reacção dos pais do Zequinha,
essa, não consta da estória
Então, como está o “Comodoro”?
Uma
última estória demonstrando até onde chegou a fama do burro “Comodoro”. O Destacamento
tinha realizado uma operação com algum sucesso e regressava à base embarcado
numa LDM. A LDM atraca à ponte-cais e o pessoal começa a desembarcar, quando se
ouve o ruído dos motores de um helicóptero que se aproxima, sobrevoa o
aquartelamento e aterra no local que estava preparado para esse efeito. Ainda a
caminhar na picada que saía da ponte-cais e atravessava o aquartelamento,
apercebo-me de que estão a sair do helicóptero o general Spínola e os seus
habituais acompanhantes. Mudei o rumo que seguia em direcção ao meu abrigo e
dirigi-me para o local onde o general e a sua comitiva se encontravam.
Cumprimento-o militarmente; retribui-me a continência e pergunta-me de chofre: «Então,
como está o Comodoro?». Fiquei meio atarantado e sem saber o que responder,
tanto mais que não ia a Bissau há já uns tempos e que o Comodoro também não
visitara o nosso aquartelamento. Um pouco para não ficar calado, mas sentindo
que havia um certo tom irónico na pergunta do general, acabei por responder com
uma pergunta: «Qual?». O general, esboçando um sorriso, que, segundo os relatos
da época, era coisa rara, respondeu: «O seu, claro! Com o Comodoro estive hoje
de manhã no briefing!». E passou imediatamente a fazer-me perguntas sobre a
operação que acabara de realizar, partindo logo de seguida com algumas palavras
simpáticas de incitamento ao pessoal que, entretanto, se fora chegando para
junto do helicóptero.
E
ficamos por aqui, tanto mais que houve rendições no Comando da Defesa Marítima
e a alcunha do burro, continuando a ser o "Comodoro", perdeu as
primitivas conotações, passando a denotar unicamente um burro, como outro
qualquer, com a única particularidade de ser a mascote simpática e pouco comum
de um Destacamento de Fuzileiros.
Perguntar-me-ão
ainda alguns: e o que foi feito do "Comodoro" quando vocês se vieram
embora? Tanto quanto sei, e não dispondo de qualquer guia de marcha para o
provar, foi deixado com um destacamento do Exército que se encontrava num posto
isolado e tinha de recolher água num local onde as viaturas não conseguiam
chegar, pelo que uma parte do percurso das bilhas de água era feito às costas
dos soldados. Ora um burro, mesmo com o posto e o prestígio do "Comodoro",
fazia melhor esse trabalho do que as costas dos soldados do Exército destacados
para o abastecimento de água, os quais certamente lhe ficaram eternamente
gratos.
PS.
– Uma palavra de agradecimento ao Teixeira de Aguilar por ter tido paciência
para limar as arestas e me ajudar a dar forma a este texto.