sexta-feira, 14 de março de 2008

Coisas passadas

A nossa idade, que já vai sendo provecta, dá-nos para recordar as coisas mais estranhas e, até, sem importância nenhuma, mas que surgem à tona sabe-se lá porquê. Um dia destes lembrei-me do drama que sempre foram as comunicações na Marinha. Talvez seja por causa desta permanente incapacidade para se actualizar seja o que for nas F.A., em termos de material. Se agora é deliberado, noutros tempos não seria e, no entanto...
Vamos por partes. A Marinha foi pioneira nas comunicações e sempre teve e manteve uma rede fixa e um serviço móvel marítimo de ondas curtas de grande qualidade. Nunca foi problema comunicar em HF de Macau ou Timor para Algés, no entanto dois navios falarem entre si, em fonia, a curta distância foi sempre mais problemático. Então com navios mercantes só mesmo quando apareceram os equipamentos VHF, o que foi tardíssimo. Nos tempos de África, ao entabular comunicações com navios mercantes, eles mandavam passar ao canal 16 e nós olhávamos uns para os outros _ Canal quê? Só com as "Pereira da Silva" e as "João Belo" apareceram na Marinha os primeiros VHF canalizados, como o resto do mundo já tinha há que anos, e foi uma alegria. No plano táctico, com equipamentos de UHF de sintonia a cristal, a flexibilidade em frequências era perto de zero e a fiabilidade era tal que era costume estabelecer os circuitos do plano de operações na véspera de sair para o mar, que era para ter a certeza de que não havia falhas. Para exercícios da NATO, requisitar e ter a bordo à hora de largar todos os cristais necessários era uma dor de cabeça para o comunicativo. Nessa época a cooperação com a Força Aérea era intensa. Praticávamos muito TASMO, mas era uma lotaria. Os nossos camaradas pilotos muitas vezes deram meia volta e foram embora por não conseguirem falar connosco. Eles saltando de frequência com toda a facilidade e nós continuando cristalizados. Isto provocáva-me uma certa raiva, porque via a circular por Lisboa triciclos motorizados com rádio, a distribuir bilhas de gás que, de certeza, não tinham os nossos problemas. Era uma humilhação. Foram depois introduzidas as comunicações por RATT com cifra on line. Outro drama; não se conseguia comunicar, alinhar as máquinas era um bruxedo. Ao fim de muito tempo lá se conseguiu, depois de uma acção de espionagem em que tomei parte. Para comunicações internas dos navios, sobretudo para a faina, havia uns transreceptores já modernos, creio que era o DP 15, mas só havia oito na Marinha e tinham que andar a rodar pelos navios que iam para o mar, provocando toda a casta de problemas. O Comandante Naval prometia que se haviam de comprar mais, mas só podiam ser inscritos num orçamento para dali a não sei quantos anos.Isto causava a maior estranheza porque cada polícia de choque trazia um igual à cintura. Vinham de Macau, dizia-se.
Levou muito tempo até que tudo começasse a normalizar com a substituição de equipamentos, a instalação do Sistema Integrado de Comunicações, os satélites, a informatização, etc. Parece hoje tudo tão fácil, mas olhando para trás até custa a crer...

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