sexta-feira, 7 de novembro de 2008

PORQUE NO TE ....

Mas eu tenho de me calar perante tanta eloquencia e perante uma personalidade que tanto fez e tem feito, altruísticamente, pela Pátria.....



Público, sexta-feira, 7 de Novembro de 2008
Um golpe de Estado dos pequenitos
Parte relevante das Forças Armadas deseja transformar Portugal de modo acelerado num país do Terceiro Mundo
A vitória de Obama e o desejo de (Onde está o Wally?) encontrar nos países europeus alguém com o seu carisma e capacidade empática; a fraqueza legal do diploma que determinou a nacionalização do BPN (e a memória das nacionalizações de há 30 e tal anos). Aí estavam dois temas que me apeteceria abordar. E que, pela sua intensidade, fizeram desaparecer do mapa dos media o assunto a que decidi dedicar desta vez a minha atenção. Para que não fique esquecido.
O caso é verdadeiramente importante e num país normal não desapareceria da circulação com esta rapidez. Estou a falar de declarações do general Loureiro dos Santos e do coronel Vasco Lourenço sobre os riscos que corre a democracia devido ao mal-estar que grassa em cidadãos que, em relação aos outros, têm a particularidade de estar legalmente autorizados a usar armas de fogo.
Estas declarações deixaram-me estupefacto. Cheguei mesmo a pedir que adiassem o golpe de Estado para depois da minha morte. Não me apetecia voltar a ser detido e não tenho dúvidas que - gostando eu de dizer o que penso - seria por certo dos primeiros a malhar com os ossos na cadeia.
Mas ainda fiquei mais estupefacto quando li alguma imprensa a dizer que o general Loureiro dos Santos tinha moderado o seu discurso, pois afirmara que o Governo já estava sensibilizado e seguramente que iria concretizar as soluções possíveis. Isto é, moderar o discurso é neste caso afirmar que a ameaça tinha surtido efeito. O que deve ser lido como uma nova ameaça: se o Governo não concretizar a solução, a tropa virá para a rua e - como nos Tambores de Bronze, de Jean Larteguy - alguns mais exaltados (no romance estavam bêbedos, o que por vezes coincide...) podem fazer disparates.
Vamos a ver se nos entendemos. Admiro o que as Forças Armadas fizeram em vários momentos da nossa História. Saúdo os que em África lutaram dando tempo para que o Poder Político encontrasse uma solução. Admito que estejam a ser vítimas de injustiça. Até percebo que lhes faça pena que um hospital deixe de ser a maior unidade das Forças Armadas e que tenham saudades do tempo em que havia hospitais supostamente especializados para cada ramo das Forças Armadas. Não quero discutir aqui e agora a minha tese de que o Exército e a Força Aérea seriam dispensáveis, mantendo-se apenas uma guarda costeira, uma força de intervenção rápida, forças militarizadas e de segurança e meia dúzia de oficiais generais.
Do que se trata é de outra coisa. Em pleno século XXI, na Europa, pessoas que se presumem estar no exercício normal das suas faculdades mentais fazem-se porta-vozes do mais arcaico procedimento dos militares, o de ameaçar usar as armas em proveito próprio. Devemos, pois, assumir que estão a querer avisar-nos, a nós, civis, de que o risco existe e é real.
Tratar este tipo de declarações como afirmações ridículas de generais saídos de álbuns do Tintim é faltar ao respeito a dois militares que podem ter muitos defeitos, mas que foram dos primeiros a perceber que a tropa que se apossou do poder estava a dar cabo de Portugal e tiveram a coragem - que faltou a muitos outros - de lutar para alterar esse estado de coisas. Pelo meu lado, levo a sério o aviso.
O que significa o óbvio. Parte relevante das nossas Forças Armadas deseja transformar Portugal de modo acelerado num país do Terceiro Mundo, quando no Terceiro Mundo se fazem esforços para acabar com as quarteladas como forma de fazer política. E esta realidade deve ter consequências. Eis algumas delas:
1. O Governo não pode, evidentemente, ceder às exigências dos militares, a partir do momento em que Loureiro dos Santos e Vasco Lourenço verbalizam o risco de golpes de Estado, tiroteio para o ar, pronunciamentos e outros disparates, palavra esta que uso retirando-a da boca do general Loureiro dos Santos para que se não engasgue. Mostra a sabedoria das nações que quando se começa a ceder às ameaças da tropa é cada vez mais difícil parar.
2. O Governo deve saber ler os sinais dos tempos. Tropas ociosas são em regra mais propícias a disparates do que tropas ocupadas. Também isto nos revela a sabedoria das nações. Admito a minha ignorância, mas não consigo vislumbrar muitos motivos de actividade para tanta tropa em Portugal. Mas, seja como for, talvez não fosse disparate que o Governo encontrasse algumas ocupações, entre as quais não me parece que fosse uma desonra mobilizá-los para assegurar a ordem pública em bairros problemáticos.
3. Tropa ociosa e em excesso é sempre um risco e um custo para o erário público. Não percebo a razão de tanto quartel, tanto carro de funções, tanta burocracia armada. Acho que o Governo deveria fazer aplicar com rapidez um programa em que seja fechada a generalidade dos quartéis, e se mandem para casa, com ordenado garantido, parte significativa dos militares, permitindo-lhes que possam aplicar as suas qualidades na vida civil e com isso contribuindo para aumentar a riqueza nacional.
4. O Governo e a Assembleia da República devem, além disso e com prazo certo, concretizar uma reforma profunda da instituição militar. Admito que não cheguem até onde eu sugiro, mas sem dúvida que se pode reduzir drasticamente os quadros do Exército e da Força Aérea, fechar hospitais militares (ou integrá-los no sistema nacional de saúde), acabar com os estados-maiores das armas, diminuindo assim os custos do sistema.
Se calhar nem assim conseguiremos evitar leviandades de militares aborrecidos, injustiçados e armados. Mas talvez, sendo menos, possam fazer apenas golpes de Estado muito pequeninos. Ao estilo do famoso Portugal dos Pequenitos.
José Miguel Júdice
Advogado

5 comentários:

O J.N.Barbosa disse...

Confirma-se que a criatura além de má é ignorante. E foi bastonário da Ordem dos advogados! Como ele diz, isto é o terceiro mundo.

O Bastos Moreira disse...

Parvoices !!!

O J. Teixeira de Aguilar disse...

Julgo que este senhor é mais novo do que eu, mas há bastante tempo que revela sinais de senilidade. Só lhe dou razão num ponto, que é o da ignorância: nós, militares, somos muito culpados da ignorância que os civis em geral manifestam a nosso respeito. Se metermos a mão na consciência, verificaremos que só recentemente passámos a ter expressão pública, e por via de manifestações que estão muito longe de serem populares...

O LSN disse...

Ele anda mas é a fazer fretes políticos ao PS ... esta arenga não é mais do que isso.

O J Lourenço Gonçalves disse...

O senhor foi um bom Bastonário da Ordem dos Advogados (eu não sou suspeito pois não votei nele) mas ficou, irremediavelmente, traumatizado com a prisão que sofreu em 1974!