Postal de Goa (III)
Goa foi um dos mais importantes e mais frequentados portos marítimos do mundo ao longo do século XVI, nele convergindo um intenso movimento de navios e de navegantes de muitas nações e, além disso, era a capital do Estado Português da Índia e o centro operacional de um poder naval que então não tinha paralelo no oceano Índico.
No dia 26 de Setembro de 1604, perante a surpresa dos portugueses que em Goa esperavam pela chegada das naus do Reino com a habitual remessa de dinheiro, de soldados e de notícias, fundeou ao largo da barra de Goa uma poderosa armada holandesa. Comandava-a Steven van der Hagen que, depois de alguns dias de espera e impaciente por não ter tido sucesso na sua tentativa de capturar as naus portuguesas que vinham de Lisboa, cessou o seu bloqueio à barra de Goa no dia 19 de Outubro.
Foi um aviso premonitório daquilo que iria ser a hostilidade holandesa nos sessenta anos seguintes e o facto é que, por iniciativa do vice-rei Aires de Saldanha, se começou a construir uma praça fortificada no morro da Aguada, nesse mesmo ano de 1604. Com essa praça pretendia-se constituir um sistema fortificado de protecção à barra de Goa, que reforçasse o reduzido poder defensivo das fortalezas dos Reis Magos e de Gaspar Dias, mas por carência de fundos, a imponente obra só em 1612 ficou concluída.
A fortaleza da Aguada passou a ter um papel decisivo na defesa da barra de Goa, como
se verificou alguns anos depois durante os bloqueios feitos pelas armadas holandesas. Na literatura náutica portuguesa e em especial nas descrições de viagens, começaram então a aparecer as expressões “meter debaixo da fortaleza” ou “meter à sombra da fortaleza”, significando a intenção de procurar o abrigo proporcionado pela sua artilharia.
Quando na Europa ainda não existiam ou eram poucas as construções expressamente edificadas para apoiar a navegação marítima, no interior da fortaleza da Aguada, tinha sido construído um farol para apoiar a navegação, pelo que aquela praça aparece algumas vezes referenciada como o “castelo do farol”, nomeadamente na cartografia portuguesa da época.
Se em relação aos faróis europeus subsistem muitas dúvidas quanto às datas em que foram construídos, não parece haver dúvidas quanto aos mais antigos faróis da Ásia e da América, ambos construídos pelos portugueses: o farol da Aguada em Goa (c.1610) e o farol da Barra no porto brasileiro de Salvador (1698).
O primitivo farol sofreu muitas adaptações ao longo dos anos e em 1865 passou a ter a peculiar arquitectura que ainda conserva, apesar de ter sido desactivado e substituído por um incaracterístico novo farol localizado a algumas dezenas de metros.
Carta da Ilha de Goa de Manoel Godinho de Erédia, feita em Goa em 1610, na qual já está assinalado o farol da Aguada


1 comentário:
Será que a Academia de Marinha e a Sociedade de Geografia têm esses registos?
A História faz-se de investigação e não de compêndios.
Um abraço ao Costinha!
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