segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Postal de Goa (IX)

O FORTE DE ALORNA

Em meados do século XVIII o Brasil e as suas riquezas despertavam todas as atenções do Reino de Portugal, enquanto o Estado da Índia atravessava um período de grande decadência, depois da perda de muitos dos seus territórios para a Companhia das Índias Holandesas (VOC).
Em 1739, perante a indiferença dos ingleses instalados em Bombaim, os exércitos maratas tomaram Baçaim, a capital da rica Província do Norte e, mais a sul, cercaram Goa. A solução encontrada para libertar Goa da pressão marata passou pelo abandono de Chaúl.
A gravidade da situação foi então compreendida em Lisboa e o Estado da Índia voltou a merecer atenção e a receber reforços, para recuperar a Província do Norte ou levar as fronteiras de Goa mais para o interior.
O território de Goa era constituído apenas pelas chamadas Velhas Conquistas e a opção foi alargar o seu território pelas vias militares e negociais.
Depois do curto vice-reinado do Marquês do Louriçal, sucedeu-lhe D. Pedro Miguel de Almeida e Portugal, marquês de Castelo Novo, um experiente administrador colonial que já exercera as funções de governador de São Paulo e Minas do Ouro do Brasil. O novo vice-rei procedeu à ocupação das praças de Bicholim, Sanquelim e Tiracol e, no dia 5 de Maio de 1746, tomou pelas armas o forte de Alorna, situado na margem direita do rio Chaporá, no concelho de Perném.
Os novos territórios passaram a ser conhecidos por Novas Conquistas e aos 786 km2 que os portugueses dominavam, em poucos anos foram-lhe acrescentados cerca de 2825 Km2.
Em 1723 o vice-rei Almeida e Portugal tinha adquirido a Quinta de Vale de Nabais em Muge. Porém, quando em 1750 regressou de Goa a Portugal, o Rei D. João V concedeu-lhe o título de Marquês de Alorna, em reconhecimento pelos actos de bravura praticados na tomada daquela praça forte, o que o levou a mudar o nome da sua quinta para Quinta da Alorna.
O forte de Alorna tem uma configuração pentagonal irregular e tem 4 baluartes, sendo protegido por um fosso que podia ser facilmente inundado pelas águas do rio Chaporá.
Embora em 1983 o governo de Goa tenha classificado o forte de Alorna como património histórico, o facto é que actualmente se encontra em precárias condições e coberto pela vegetação.

(Para ampliar,"clicar" na imagem)

Em Portugal, a palavra Alorna está hoje associada à obra literária de Leonor de Almeida Lorena e Lencastre, 4.ª marquesa de Alorna, cuja poesia está reunida nos seis volumes das “Obras Poéticas da Marquesa de Alorna”, mas também aos vinhos da Quinta da Alorna (http://www.alorna.pt/), mas poucos saberão esta curiosa história da forma como, em meados do século XVIII, este topónimo navegou de Goa para Portugal.

3 comentários:

O Ferreira da Silva disse...

Parabéns pelo texto. Espero mais para o novo ano. Um abraço.

O José Cruz disse...

Mais um magnífico postal do RC.
A palavra Alorna, de que não conhecia a origem, também está associada a outra obra, as "Memórias do Marquês de Fronteira e d'Alorna" da autoria de D. José Trazimundo Mascarenhas Barreto, escritas entre 1861 e 1863 e reportando-se ao período entre 1802 (data do nascimento do autor) e 1853 (ano do falecimento de D. MariaII).
Mais uma vez para ti, nessas terras longinquas, um abraço com votos de Bom Ano Novo.

O Pires Neves disse...

Não tendo o ano terminado ainda vou a tempo pois, de te felicitar (o que já devia ter feito) pelos excelentes postais que tens enviado, que muito admiro pelo conjunto de conhecimentos da nossa história da Índia e das nossas gentes que transportam, elucidativos que são, do que alguns dos nossos antepassados ai fizeram em vista do engradecimento do País e do seu bom nome. Bem hajas por tão nobre iniciativa. Um Bom 2010 para ti e para a tua mulher.
Um abraço