sexta-feira, 18 de junho de 2010

José Saramago


Morreu hoje, com 87 anos, em Lanzarote (Espanha). Independentemente das posições políticas e das várias polémicas em que esteve envolvido que, julgo eu, impediram um reconhecimento mais alargado (em Portugal) da sua obra, era um vulto maior da literatura universal. Não sou um conhecedor profundo do Nobel da Literatura de 1998 mas gostei imenso do "Memorial do Convento", o primeiro livro dele que li. Sofri para poder terminar "A Jangada de Pedra" mas foi com grande prazer que li, entre outros, "O Ano da Morte de Ricardo Reis" e, sobretudo, o "Levantado do Chão".
Passei por ele, de raspão, em Abril de 2004 por ocasião do lançamento do seu livro "Ensaio sobre a Lucidez". Foi em Almada, na Biblioteca Municipal. A sessão estava marcada para as nove da noite e já passava bem das dez quando José Saramago apareceu, rodeado de amplo séquito. Vários elementos botaram faladura, por isto e por aquilo, representantes da Câmara, do editor, deste e daquele. Quando o escritor falou, a primeira coisa que fez foi pedir desculpa pelo atraso, coisa que ninguém antes se lembrara. Depois, e perante a impaciência mostrada pela numerosa assistência que esperava levar para casa um livro autografado, assegurou que todos o teriam e que ele seria a última pessoa a abandonar a sala nem que fosse às tantas da manhã. Finalmente, quando uma criança de colo deu alguns sinais de sonoridade exagerada e levou a que a mãe se levantasse para sair, foi ele que lhe pediu para ficar desvalorizando o incómodo. A imagem que eu tinha dele, de austeridade, sisudez e mesmo de alguma antipatia foi completamente alterada após este episódio menor, sem dúvida, mas muito marcante para mim.
Daqui lhe presto a minha modestíssima homenagem. Que descanse em paz.

4 comentários:

O Ferreira da Silva disse...

Não o conheci pessoalmente. Li quase toda a sua obra literária que marca o século XX português.
Acompanho-te na homenagem

O FdaPonte disse...

Tenho o "Evangelho" com uma dedicatória personalisada.
Li quase toda a sua obra embora tenha livros preferidos.
Também vos acompanho numa homenagem ao escritor

O José Aguilar disse...

Podia gostar-se ou não da pessoa e das suas posições - mas era um homem cheio de dignidade, e como tal merecedor de todo o respeito. Pode gostar-se ou não da sua literatura, mas ela tem inegável valia e densidade, marca uma época, retrata muito do que somos e ultrapassa as nossas acanhadas fronteiras (todas as nossas fronteiras). Também por isso ele merece todo o respeito. A sua partida empobrece-nos; fica a sua obra, que nos enriquece.

O Nunes da Cruz disse...

A primeira vez que ouvi falar do Saramago, foi a um nosso camarada de curso, elogiando de tal forma o Memorial do Convento que fui logo comprá-lo.
Devorei-o e desde então não mais perdi nenhum dos livros dele que iam saindo e mais dois ou três anteriores.
A lucidez espantosa, a ironia acutilante sob a capa de um pessimismo crónico, a imaginação prodigiosa e a frontalidade que de forma magistral os seus escritos espelham, amarram o leitor que se encaixe no seu estilo.
O ritmo e a musicalidade dos escritos de Saramago dispensam a grafia das virgulas e dos pontos finais que dizem não lá estar. Mas estão. Atrever-me-ia a dizer que para escrever como ele escrevia, tem de se escrever muito bem, excepcionalmente bem. E para quem fizer questão de que a pontuação lá esteja bem visível, também tem escolha.
Guardo religiosamente um pequeno apontamento pessoal dele a um camarada nosso que fez o favor do mo mostrar, que é duma simplicidade e elegância notáveis.
Associando-me aos anteriores intervenientes, aqui fica a minha singela homenagem a esse gigante das letras portuguesas que foi o José Saramago.