domingo, 1 de fevereiro de 2015

Contas...

Para amenizar um pouco o blogue e declarando desde já que qualquer semelhança com a realidade portuguesa é a mais pura das coincidências, aqui fica o registo de alguém que, sem apetência para as ditas e embora aflito por mor delas (ou melhor, por falta delas), não perdeu o sentido de humor.
 
O tempo de si mesmo pede conta,
Porque chega da conta o breve tempo.
Mas quem gastou sem conta tanto tempo
Como dará, sem tempo, tanta conta? 

Não quer levar o tempo tempo em conta,
Pois conta se não faz de dar-se o tempo,
Quando só para a conta houvera tempo
Se na conta do tempo houvesse conta. 

Que conta pode dar quem não tem tempo?
Em que tempo dará quem não tem conta?
Que a quem a conta falta, falta o tempo. 

Agora sem ter tempo e sem ter conta
Sabendo que hei-de dar conta do tempo
Vejo chegado o tempo de dar conta. 

Soneto com data de 1790 com o qual um frade administrador de uma fazenda de gado na ilha de Marajá (Estado do Pará – Brasil) respondeu ao Geral da Ordem, que o intimara a prestar contas em prazo de tempo por lhe ter constado que ele as não tinha muito regularizadas. 
Copiado de um livro velho sem capa nem rosto, ignorando-se portanto o autor.

3 comentários:

O J. Teixeira de Aguilar disse...

Excelente!

O Luís Silva Nunes disse...

Coincidência, sem dúvida ... mas olha que este frade deve ser tido em conta!

O Curso OC disse...

Recebido (correio electrónico) o seguinte comentário:
"Vai para uns anos encontrei um poema muito semelhante que, tanto quanto recordo, começava assim:
Deus nos dá do tempo conta
É preciso dar a Deus conta do tempo
.......

A autoria era atribuída a um frade arrábido
Abraço do E. Gomes"