sábado, 21 de março de 2020

Mão de obra

Um comentário do Paiva suscitou uma recordação que passo a relatar. Durante a minha última comissão em Angola fiz dois destacamentos de quatro meses para S. Tomé, o que me permitiu conhecer bem aquela realidade. Nesse tempo (1972-74) já havia uma grande tendência para os caboverdianos abandonarem S. Tomé, libertos daquele regime da dívida à cantina que os mantinha lá eternamente. De facto, via-se que no avião semanal seguiam sempre caboverdianos de malas aviadas para não mais voltar. Nessa época o destino da emigração já se virara para a Holanda e Lisboa, onde as obras da nova linha do metropolitano absorviam uma grande quantidade de mão de obra de Cabo Verde. A procura de transporte foi crescendo, de tal modo que, a certa altura, a Sociedade Geral resolveu mandar um navio, que vinha de Luanda, escalar S. Tomé para levar toda esta gente de volta à sua terra. À medida que a data aprazada para o navio chegar se foi aproximando, comecei a sentir pressão de vários sectores para transportar as famílias do Príncipe para S. Tomé para apanhar o navio. Notabilizava-se um alferes miliciano formado em Direito que, percebi, estava a fazer de agente da Sociedade Geral. Claro que não queriam levar o navio ao Príncipe e esperavam que eu lhes fizesse o frete. Fiz-me caro e, finalmente, disse que trazia o pessoal mas que não cabiam no patrulha mobílias ou malas de porão. Assim foi; fiz uma viagem carregado de gente e alguns parcos haveres. No dia seguinte, na cidade, havia uma enorme bicha  de pessoas para embarcar, esperando pacientemente com a bagagem no chão, junto a si. A bagagem metia dó. Ao fim de anos de trabalho levavam um alguidar, uma trouxa de roupa e, imaginem, alguns levavam molhos de lenha.
Quando naquele dia resolvi ir à zona de embarque, já depois do navio partir, para ver como estavam as coisas, verifiquei com espanto que metade do pessoal não embarcara. Ficaram ali. Porquê? Não havia lugar no navio. Quem vendeu os bilhetes não sei. Quem organizou aquilo também não. Não houve uma notícia, nem se falou mais do assunto lá na terra.

2 comentários:

O Jorge Lourenço Goncalves disse...

Coitados!
Exemplo típico do colonialismo!

O Ferreira da Silva disse...

Malhas que o Império teceu.