Quando eu era pequenino (embora já tivesse nascido há uns anos e os meus olhos estivessem bem abertos) a minha Mãe disse-me:”Anda para cima do passeio, meu filho, porque o passeio é que é para as pessoas. As ruas são para os automóveis”.
Anos mais tarde, quando quis tirar a carta de condução, uma das aulas práticas mais importantes do curso de condução, consistia em estacionar, entre dois automóveis, em marcha-atrás, numa rua íngreme do Porto, situada entre a Rua do Campo Alegre e Massarelos, sem tocar nos dois automóveis nem galgar o passeio.
Parece-me que, agora, tais ensinamentos se encontram fora de moda pois é raro encontrar uma viatura estacionada sem ter, pelo menos, duas rodas em cima do passeio.
Quando interrogados sobre as razões de tal anomalia, justificam-se pela pouca largura das ruas, não tendo sido previstas, pelos “tugas” autárquicos, no ordenamento dos respectivos conselhos, a existência de duas faixas de rodagem e duas faixas de estacionamento, eventualmente para não penalizarem exageradamente os “tugas” patos-bravos.
As consequências desta invasão dos passeios são evidentes (não é necessário ser licenciado em engenharia para compreender, basta apenas utilizar a cabeça para outros fins para além de se lhe colocar o chapéu):
1. Deixa de haver espaço suficiente no passeio (cuja largura não é, habitualmente, ampla) para permitir que uma mãe com um carrinho de bebé, ou um deficiente motor, ou um idoso possam passar entre a viatura e a parede ou muro, vendo-se obrigados a ir para a rua, correndo o risco de serem atropelados (sabiam que a maioria dos acidentes mortais rodoviários em Portugal é constituída por atropelamentos?);
2. Adicionalmente, como os passeios não são calculados, do ponto de vista de resistência estrutural, para suportar as pegadas de viaturas (mas apenas de pessoas, se é que foram alguma vez calculados), o estacionamento das viaturas sobre os passeios conduz à cedência do respectivo material, com o aparecimento de irregularidades (covas, etc.) que provocarão necessariamente quedas das pessoas mais débeis ou, caso decidam vir para a rua, evitando as irregularidades dos passeios, correrão o risco de serem atropelados, pelas viaturas que passam.
Pergunta: Somos ou não “TUGAS”, a tal Raça Pestilenta?
Deixo-vos um ponto adicional de meditação: Não serão os “tugas” automobilistas uma espécie de animal mítico, como o Minotauro? Senão vejamos:
Tomemos um cidadão português, tristonho e melancólico, inofensivo.
Tomemos também um veículo automóvel, estrutura mecânica, sem vida nem vontade própria.
Coloquemos esse cidadão ao volante de um veículo automóvel e verifiquemos qual é o resultado: um “tuga” automobilista, ser sem qualquer ponta de educação e de uma agressividade inaudita, um autêntico perigo público!
Tenham uma muito boa semana!