segunda-feira, 7 de abril de 2008

O BAÚ DAS VELHARIAS - ERA UMA VEZ...

Vasculhando o meu baú das velharias descobri, lá bem no fundo, uma pequena história para crianças, de autor desconhecido, a qual considerei muito interessante. Assim, peço vénia ao autor, quem quer que ele seja, para seguidamente a reproduzir:


“Era uma vez..., há bué, bué de tempo, uma Pátria, chamada Tugalândia, situada bué, bué de longe, num jardim à beira mar plantado.

Nessa Pátria, Tugalândia, existiam uns indivíduos muito esquisitos, do género extra-terrestres, que se chamavam Militares,

Estes indivíduos esquisitos trabalhavam para a Pátria, mas de maneira diferente dos restantes trabalhadores – funcionários e agentes da Tugalândia, magistrados incluídos.

E qual era a diferença? O contrato de trabalho, celebrado com a Pátria, era verbal, dito por estes trabalhadores, em voz tão alta que toda a gente, na Pátria, pudesse ouvir e lembrar-se para todo o sempre: “Juro defender a Pátria e as suas instituições, no respeito da hierarquia e na obediência aos chefes, mesmo com sacrifício da própria vida”. Queria isto dizer que o trabalho destes indivíduos esquisitos era fazer a guerra, quando e onde a Pátria assim o exigisse, matando sem remorsos ou arrependimentos e morrendo sem choros nem lamentações.

Este trabalho – fazer a guerra - exigia disponibilidade total dos trabalhadores, de dia e de noite, aos dias de semana e aos sábados, domingos e feriados, nas férias e nas pontes, sem remunerações adicionais ou outras prebendas ou benefícios.

Quando não havia guerra, os militares utilizavam todo o seu tempo para se prepararem para a guerra – treinando e estudando as maneiras de matarem mais e morrerem menos, para poderem garantir a vitória da Pátria, quando e onde a guerra viesse a ser necessária.

Por outro lado, a Pátria, para poder contar com toda essa disponibilidade total, assumia a responsabilidade de cuidar, quer na guerra, quer na paz, pelos familiares dos militares, para que nada lhes faltasse. E essa responsabilidade era igualmente assumida com os militares quando estes já não tivessem, por idade avançada ou por qualquer tipo de acidente ou doença, capacidade para continuar a fazer a guerra.

E para que os militares não se desviassem minimamente da sua ocupação exclusiva, era-lhes negada a possibilidade de se dedicarem a outras actividades (por exemplo, actividades de natureza política), de se associarem (por exemplo, em clubes ou sindicatos) e de se manifestarem publicamente.

No entanto, parecia que os Patrões da Pátria não gostavam dos militares. E porquê?

Não há certezas, apenas dúvidas e interrogações:

- Seria por os militares terem provocado, há ainda mais tempo atrás, um golpe de estado que terminou a Democracia Velha e instalou a Pátria Nova?

- Seria por os militares terem, ao longo de cinquenta longos anos, protegido e defendido a Pátria Nova e o seu Medíocre Ditador?

- Seria por os militares terem lutado bravamente, e como era sua obrigação, na Última Guerra do Terceiro Império, enquanto outros (que ainda não eram Patrões da Pátria) teriam fugido da Pátria para não serem obrigados a participar na guerra?

- Seria, ainda, por os militares terem, através da Revolução Florida, terminado a Pátria Nova, apeado os seguidores do Medíocre Ditador e criado condições para a implantação da Nova Democracia?

- Seria, finalmente, por os militares, após a implantação da Nova Democracia, não se terem limitado a fazer a guerra, quando e onde a Pátria assim o exigisse e a prepararem-se a guerra, pretendendo, eles próprios serem os Patrões da Pátria?

Não o sabemos e supomos que nunca o viremos a saber.

O que parece ter acontecido é que os Patrões da Pátria teriam iniciado um processo de transformação dos militares em funcionários, deixando de assumir as responsabilidades da Pátria no cuidar dos familiares e dos militares incapacitados, tendo até alguns amigos influentes dos Patrões da Pátria chegado a sugerir que a guerra deixasse de ser feita com submarinos, fragatas, helicópteros, torpedos, mísseis, minas e outras armas, por ser assim muito dispendiosa e passasse a ser feita com paus e com pedras, de forma muito mais económica.

Infelizmente, os militares ter-se-iam posto a jeito, facilitando a tarefa dos Patrões da Pátria:

- Teriam passado a preocupar-se, não com a guerra e a preparação para a guerra, mas com o exercício de cargos e funções não militares e de representação.

- Teriam criado sindicatos, a que chamaram, eufemísticamente, “associações”.

- Teriam participado em manifestações, em alguns casos escondendo-se atrás das saias das mulheres (que vergonha!).

- Teriam, quando castigados pelos seus Comandantes, procurado e conseguido, com o auxílio dessas “associações”, que magistrados impusessem o não cumprimento de tais castigos tendo os Patrões da Pátria chegado a decidir que os Comandantes só comandavam os militares em tempo de guerra e que, em tempo de paz, eram os magistrados que comandavam.

Infelizmente, nunca foi possível confirmar quanto acima ficou dito.
O que parece ter acontecido foi os militares terem passado a ser funcionários, convertidos para trabalharem para a Sociedade Civil, tendo deixado de se ouvir a expressão do contrato verbal entre os militares e a Pátria, dito publicamente, em voz tão alta, que toda a gente, na Pátria, pudesse ouvir e lembrar-se para todo o sempre: “Juro defender a Pátria e as suas Instituições... mesmo com sacrifício da própria vida”.

E, assim, terá tido início o lento desaparecimento da Pátria Tugalândia!”

FIM

4 comentários:

O Nunes da Cruz disse...

Uma história para crianças com muitas reflexões para os adultos.
Parabéns ao autor e ao relator. Se forem acumuláveis as duas funções, parabéns duplos.

O Bastos Moreira disse...

Bravo Zulu !!!

O Montalvão disse...

Caro Jorge Beirão Reis

Fiquei "arrepiado" com a tua veia literária e orgulhoso de seres meu amigo e camarada!
Um grande abraço
Jaime

O FdaPonte disse...

Carago, Jorge Beirão, desarrincaste cá uma prosa...em cheio.