quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Porque Não Desce o Preço da Gasolina ?

Tomo a liberdade de, com a devida vénia, transcrever o editorial de Pedro Santos Guerreiro, publicado ontem, no Jornal de Negócios on line:


"Se nos últimos três meses a cotação do petróleo desceu quase 40%, por que é que o preço de venda da gasolina em Portugal caiu quase dez vezes menos?" A Galp pode achar que a pergunta é impertinência de ignorantes e a Autoridade da Concorrência entender que no pasa nada, mas devem ser os únicos à face da Terra a pensá-lo.

A Galp pode achar que a pergunta é impertinência de ignorantes e a Autoridade da Concorrência entender que no pasa nada, mas devem ser os únicos à face da Terra a pensá-lo. Menos certezas tem o comissário Europeu da Energia: falando especificamente de Portugal, Andris Piebags diz que a Autoridade da Concorrência "tem de acompanhar melhor o mercado dos combustíveis", para "confirmar permanentemente que não há práticas de cartelização entre as gasolineiras".

A questão do preço dos combustíveis está a tornar-se uma conversa de surdos. Ainda ontem, a Galp disse que não tem poder para definir preços de combustíveis, o que dá vontade de rir. Logo depois, o ministro da Economia pediu que as descidas sejam mais rápidas, o que dá vontade de sorrir. A associação das petrolíferas diz que não haverá descidas em breve, o que perante a queda do petróleo dá vontade de ruir. E os revendedores querem voltar a bater à porta da Concorrência, o que dá para pouco admitir, pois esta já validou todos os argumentos das gasolineiras, atribuindo a evolução dos preços a impostos e à conjuntura internacional. Foi a 3 de Junho que a Autoridade da Concorrência assim disse. O que se passou desde então? Muito.

Há factores que atenuam os efeitos aritméticos simplificados no primeiro parágrafo. A descida do petróleo em euros foi menor do que em dólares. E há uma componente fixa de imposto que dilui a descida do preço antes de impostos. Finalmente: a Galp diz que interessam mais as cotações internacionais das gasolinas do que o preço do petróleo.

Seja qual for a forma como se calcula, a descida dos preços na bomba é sempre mínima. De 4 de Junho para cá, em euros, o petróleo caiu 31%; as cotações internacionais do gasóleo e da gasolina desceram 23% e 13%, respectivamente; o preço médio na bomba em Portugal diminuiu 8% no gasóleo e 4% nas gasolinas, o que antes de impostos significa menos 16% e 8%.

Pode ser um balde de água fria mas estas contas nivelam a discussão: os preços dos combustíveis descem menos, mas não dez vezes menos. O primeiro parágrafo pode ser refeito:

"Se nos últimos três meses a cotação internacional do gasóleo desceu quase 23% em euros, por que é que o preço de venda da gasolina antes de impostos em Portugal caiu quase 30% menos?"

As gasolineiras merecem estar debaixo de crivo atento e diário, o que, aliás, este jornal tem feito amiúde. E, como aqui já se contestou, o relatório da Autoridade da Concorrência legitima, sem espírito crítico, tudo o que a Galp alguma vez ousou pensar. Mas, para avaliar a empresa, há dois tipos de julgamento: o do tribunal popular, onde se lê o primeiro parágrafo deste texto; ou o tribunal informado, onde se invoca o último parágrafo. A escolha sobre qual a sala de audiências em que prefere estar é inteiramente sua.

2 comentários:

O Orlando Temes de Oliveira disse...

Está na hora de voltar ao assunto uma vez que da 1ª vez ninguem achou pertinente...
Quando a preocupação é a cartelização dos postos de revenda dos combústíveis, devem estar a gozar comigo.... Então não será que havendo uma só empresa a refinar producto em portugal todas as estações de serviço ( ou a maioria)não irão comprar os combustíveis à porta da galp refinaria? Sendo assim, é natural que o preço, na bomba, não possa ser muito diferente.
A questão será porquê a Galp refinaria (e julgo que se confunde muito com a Galp-estação de serviço)põe à venda os productos a preços que não acompanham os preços do crude. E com isso conseguiu lucros astronómicos nos últimos 12 meses. E faz isto ao abrigo de uma portaria publicada pelo Governo Durão Barroso.... Não seria legitimo e patriótico que o actual governo revogasse esse diploma, e colocasse a Galp a ter os lucros admissíveis para uma empresa portuguesa (os sacrificios que se pedem aos portugueses não são para os accionistas da galp?) Ou não será que os preços dos combustíveis dão cabo de toda a estrutura económica portuguesa?
E depois o Sr Presidente d Galp não gosta que lhe chamem ladrão e vigarista (Jornal Expresso de 28 de Jun)
E já agora tambem se perceba porque o Sr. Patrik Monteiro de Barros foi impedido de montar outra refinaria....Lá se acabava o monopólio....

O Jorge Beirão Reis disse...

Comentário ao comentário do Temes:
Suponho que numa economia de mercado (capitalista) ninguém poderia impedir um importador de se estabelecer em Portugal - se o mercado fosse apetecível - e importar refinados (gasolina e gasóleo) a preços mais convidativos que os praticados pela GALP refinaria. Logo, das duas uma:
a)A GALP refinaria coloca no mercado os seus produtos refinados a um preço imbatível ou
b) Este mercado é insignificante e não vale a pena esse tal importador estabeledcer-se neste mercado.

Qual será a verdadeira razão para este suposto cambalacho?