sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Padre Paul

Os que andaram pelo Lago Niassa na decada de sessenta conheceram ou ouviram falar do padre Paul, um missionario anglicano que chefiava a missao de Messumba, logo a Norte de Metangula.
Estou em Inglaterra (dai este post nao ter acentos) e ao ler o jornal de hoje dei com uma extensa nota necrologica noticiando a morte deste padre. Vale a pena recordar que as missoes protestantes nao eram bem vistas pelas autoridades portuguesas, que sempre suspeitaram do seu apoio aos movimentos emancipalistas. Esta nao era excepcao e o proprio padre explanou o seu papel no apoio as populacoes e aos combatentes no seu livro, que foi um best seller em 1975, chamado Mozambique_Memoirs of a Revolution, editado pela Penguin. O padre Paul chegou a Mocambique em 1957 depois de passar um ano em Lisboa a aprender portugues e a tirar a carta de conducao, e manteve-se no Niassa ate 1970, de onde saiu por doenca, regressando a sua patria. Fiquei com esta personagem na memoria por causa de um episodio que se passou comigo em 1967, estava eu temporariamente em Metangula a comandar uma LFP. A missao anglicana de Messumba pertence a diocese anglicana dos Libombos, cujo bispo era um portugues do Porto, dr. Pina Cabral, que na altura resolveu fazer uma visita a missao. Lembro-me que aterrou em Metangula e seguiu para a missao ja nao sei como, sendo certo que por estrada nao se transitava por estar minada (pelo menos para nos...). No dia seguinte vem um convite do padre Paul para a Base de Metangula para nos fazermos representar numa pequena festa por ocasiao da visita do bispo. So havia uma maneira de ir ate a missao, que ficava numa pequena elevacao sobranceira a margem do Lago, e que era de lancha de desembarque. O Comandante da Defesa Maritima de Metangula achou por bem que quem o devia representar seria eu, acompanhado por um outro oficial da Reserva Naval de cujo nome ja nao me lembro. A hora aprazada os dois garbosos oficiais, fardadinhos de branco, embarcam na LDM e rumam a Norte, sem mais nada combinado e com alguma apreensao. Passada uma hora de caminho abicamos a praia e saltamos em terra, mesmo no meio de um povoado e perante o olhar espantado da populacao. Um espectaculo e prontos a ser apanhados a mao. Seguimos resolutamente terra a dentro, seguidos por uma chusma de miudos e pelos olhares inquisitivos do povo. O percurso era mais longo do que parecia visto do Lago e ja comecava a ficar apreensivo com a nossa sorte, quando da picada surge uma Unimog com uma seccao de soldados armados, que nos olhava como se fossemos extra-terrestres. La nos levaram ate a missao, onde nunca tinham visto os seus vizinhos mais proximos assim tao bem vestidos e descontraidos. Cumprida a missao e a hora aprazada voltamos a praia conduzidos pela tropa, onde nos esperava a LDM. E la voltamos a Metangula, com um suspiro de alivio e a cair em nos de tamanha imprudencia. De facto nao houve o minimo planeamento com o Exercito nem os padres tinham a certeza de nos irmos...

2 comentários:

O Jorge Beirão Reis disse...

Muito bom! Magnífico!
São histórias como esta que devem constituir o nosso livro dos 50 anos.

Peço a colaboração dos outros OC's para puxarem pela memória pedindo, se necessário, a ajuda do nosso amigo alemão, cujo nome não me lembro e apresentem histórias como a que o Barbosa nos contou.

Tenham um bom fim de semana!

Um abraço,

O Orlando Temes de Oliveira disse...

Notável. Até de férias o Nuno anda atento! Episódio curioso e ilustartivo da passagem portuguesa por terras africanas com todas as suas contradições e em função do carácter de cada um.
Quanto à relação das autoridades com as missões protestantes julgo, que não se pode generalizar pelo confronto. Confronto tambem houve com a igreja católica e tambem momentos de grande entendimento com as igrejas protestantes. Como sempre, nestas coisas, nem tudo é verde ou vermelho (tive de mudar as cores....)