quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Gritante

Termina hoje, com o dia de Reis, a quadra festiva natalícia.

Certa e felizmente, todos os membros, colaboradores e visitantes da “Água Aberta” passaram este período no calor das suas Famílias, com mesa composta segundo a tradição e com saúde, natural ou providenciada com os meios de que cada um dispõe.

Mas há outro mundo, retratado de forma chocante no DN de ontem, com notícia na primeira página e desenvolvimento na segunda: no espaço de 12 horas, no domingo anterior, tinham morrido em Lisboa nove idosos, pobres, sem quaisquer recursos, abandonados à sua sorte, em solidão, provavelmente doentes. E cerca de 15 000 aguardavam em filas de espera em lares públicos.

A população portuguesa está a envelhecer, a pobreza a aumentar, muita dela camuflada pela vergonha e a riqueza nacional cada vez mais iniquamente distribuída.

Que fazer? Deixar abandonar cada um à sua (má) sorte ou aceitar e contribuir para que a colectividade trate de maneira condigna e humana os seus velhos, pobres e doentes mais carenciados? Com estruturas, com humanidade, haja vontade para tal. O dinheiro, esse, arranja-se sempre, como se tem visto nos últimos tempos para outros fins.

Como dizia um comentador radiofónico hoje de manhã a propósito deste assunto, não nos estaremos a deixar tornar “assassinos por omissão”? O qualificativo é forte, mas mais forte é o estado em que muitos dos nossos semelhantes vivem.

Que este ano seja bem melhor para todos.

5 comentários:

O Manel disse...

Muito bem.
Mas a realidade é que o Parlamento (com o exagero de membros , assessores e despesas)está muito mais interessado em outras discussões , que não a pobreza, o envelhecimento , a solidão e o abandono.
Este País , que já foi grande e tinha o Mar,está tranformado num diletante cínico e falido a caminho de palhaço pedinte

O Curso OC disse...

Recebido o seguinte comentário:
"Caríssimo Nunes da Cruz,
O teu nobre coração, a tua sensibilidade de cidadão não podiam ficar insensíveis à desgraça social que campeia no nosso país. Conheci-te (e já lá vão 55 anos!) sempre pragmático na soluções e na Vida. Pragmatismo que, mais uma vez, deixas plasmado na resposta à pergunta retórica que colocas: "(...) haja vontade para tal. O dinheiro, esse, arranja-se sempre, como se tem visto nos últimos tempos para outros fins".
É de gente cheia de boa vontade (como a tua) que necessitamos em Portugal. Juntemos esforços e vamos para a frente. Mais uma vez, também, tinha de publicamente dizer que estou contigo.
Um abraço para ti e outro para os camaradas que fazem este curso maravilhoso e este simpático blog.

--
Luís Alves de Fraga
Coronel da Força Aérea (R)"

O Ramiro Soares Rodrigues disse...

Cruz:
A situação que denuncias, infelizmente não é de agora. Já no tempo em que, no dizer de alguns, "este país já foi grande e tinha o Mar", existia iniquidade na distribuição da riqueza nacional, fome e pobreza, a que muitos tentavam fugir recorrendo à emigração. O país tem o Mar e continuará a ser grande, se tivermos o engenho e a arte para denunciar estas situações e revertê-las a bem da comunidade. Assim, haja capacidade para lutar contra a distribuição desigual da riqueza, pela dignificação do ser humano e engrandecimento das práticas de cidadania. Estou contigo. A nossa formação comum, de há 55 anos, assim o determina. Bem hajas.

O Ferreira da Silva disse...

Honra-nos ter um chefe de curso capaz não só destas palavras, mas também de nos levar à acção. Estou contigo e seguro de saberemos encontrar uma forma, ainda que modesta, de sermos solidários.

O José Aguilar disse...

Sou dos que acreditam que há uma relação necessária entre a inteligência e a sensibilidade. É por isso que não estranho esta intervenção do Penico, mas nem por isso deixo de lhe mandar um abraço solidário, sabendo, como sei, que a capacidade de olhar para fora de nós próprios merece e carece de ser alimentada.