domingo, 24 de janeiro de 2010

Postal de Goa (XII)

O BAIRRO DAS FONTAINHAS

O mais característico e mais lusitano bairro da capital de Goa situa-se na zona oriental da cidade de Pangim, entre o morro do Altinho, o bairro de S. Tomé e a chamada ribeira de Ourém: é o bairro das Fontainhas.
Há cerca de 200 anos aquela área era um extenso palmar que começou a ser ocupado por moradores, quando a capital de Goa foi deslocada de Velha Goa para Pangim. Depois cresceu e, hoje, uma boa parte das suas casas datam do século XIX e são de arquitectura indo-portuguesa, com varandas, balcões e bonitas janelas. Não têm mais que dois pisos e a sua pintura usa cores mediterrânicas como o branco, o azul, o vermelho e o amarelo. As ruas do bairro são estreitas e sinuosas, havendo vielas, travessas, becos e escadarias.
Na promoção turística o bairro das Fontainhas é chamado o Bairro Latino e, desde 1974, beneficia de um regime de protecção municipal para evitar os efeitos da pressão urbanística e da especulação imobiliária.

Nas Fontainhas fica a capela de S. Sebastião, a típica estalagem Panjim Inn, o Hotel Venite, a delegação da Fundação Oriente e alguns restaurantes e bares, sendo a zona de Pangim onde mais se fala português. À noite é frequente ouvir-se na rua o som da RTP Internacional, que preenche os serões de muitas famílias e o atendimento na farmácia, na confeitaria ou na ourivesaria, é muitas vezes feito em português.
Desde há alguns anos que, por iniciativa do Goa Heritage Action Group, uma ONG apoiada pelo Governo de Goa, se realiza o Fontainhas Festival of the Arts, com o objectivo de animar e de suscitar o interesse dos moradores e de outros interessados pelo rico património do bairro, mas também para sensibilizar as autoridades e outros possíveis parceiros públicos e privados para a sua preservação.
A originalidade desta iniciativa está na artes que confluem nas casas antigas, através de exposições de pintura, azulejos, artefactos ou fotografia, na diversidade dos programas musicais, na animação das ruas e vielas, nos restaurantes ocasionais que apresentam as suas artes gastronómicas e nas milhares de pessoas que vêm assistir e tomar parte nesta festa.
Oficialmente, as ruas das Fontainhas mantiveram os nomes que tinham antes de 1961 e a generalidade dos seus moradores não trocaram a Rua 31 de Janeiro por uma 31st January street. Porém, há quem diga Filipe Neri Road ou St. Sebastian Road, mas a maioria dos moradores ainda continua a dizer Rua de Ourém e Rua de Natal.
Algumas ruas das Fontainhas têm uma relação especial com a Marinha, como por exemplo a Rua da Armada Portuguesa, a Rua Cruzador Rafael e a Rua Governador Teixeira da Silva.
Há alguns anos as autoridades municipais de Pangim aliaram-se à moda do azulejo e colocaram placas toponímicas nas ruas das Fontainhas, no âmbito de um processo de embelezamento do bairro.


Porém, acontece que, de vez em quando, a Goa Freedom Fighters Association (GFFA) necessita de fazer “a sua prova de vida”, que tem passado pela exibição de uma enorme animosidade para com Portugal. Habitualmente, é aproveitada uma efeméride ou uma iniciativa portuguesa para se juntarem algumas dezenas de pessoas e protestarem contra tudo o que é português. O seu campo preferencial de protesto são as Fontainhas e o resultado dos seus protestos tem sido a destruição de algumas placas toponímicas.


O Bairro das Fontainhas é uma memória arquitectónica e cultural de um outro tempo e, exceptuando muitas pessoas, nada haverá de mais português em Goa do que este bairro que, na época dos Santos Populares, até tem a sua Marcha das Fontainhas.

2 comentários:

O Jorge Gonçalves disse...

Obrigado Adelino por mais este postal cheio de colorido e em cima do acontecimento!
Um abraço

O Ferreira da Silva disse...

De cada vez que escreves abres-me o apetite para uma visita a essas terras. Um abraço