quinta-feira, 29 de abril de 2010

Postal de Goa (XXIV)

O PADRE JOSÉ VAZ, O APÓSTOLO DO SRI LANKA

A estátua do padre João Vaz em Sancoale
Embora o santo padroeiro de Goa seja S. Francisco Xavier, os católicos goeses também têm muita devoção pelo venerável Padre José Vaz (1751-1811), que em Janeiro de 1995 foi beatificado no Sri Lanka por João Paulo II, o que significa poder vir a ser canonizado em breve. O Padre José Vaz é conhecido como o Apóstolo do Sri Lanka e, se vier a ser canonizado, será o primeiro santo de origem goesa.
O primeiro contacto dos Portugueses com a ilha de Ceilão, antes chamada a ilha da Taprobana e actualmente Sri Lanka, aconteceu no dia 15 de Novembro de 1505, quando D. Lourenço de Almeida chegou à baía de Colombo e foi autorizado pelo rei de Kotta a instalar uma feitoria e a construir uma pequena capela. Depois, a relação comercial e religiosa reforçou-se e alargou-se pelo litoral da ilha até Negumbo, Mannar, Jaffna, Trincomalee, Batticaloa e Galle, onde foram estabelecidas feitorias e construídas pequenas fortalezas.

Carta da ilha de Ceilão publicada pelo cartógrafo flamengo Petrus Bertius em Amsterdam, c. 1600-1618

Depois de terem expulso os portugueses de Malaca, os holandeses afastaram-nos definitivamente da ilha de Ceilão em 1658. Os missionários católicos foram expulsos e os que lhes dessem abrigo foram ameaçados de morte. A população convertida foi obrigada a alterar as suas práticas religiosas e a sua sobrevivência estava ameaçada pelas perseguições calvinistas, o que levou o Padre José Vaz a ir de Goa para o Ceilão em seu socorro. O Padre José Vaz tinha sido ordenado em Goa em 1676 e em 1681 foi missionar para os territórios do Canará, situados a sul de Goa. Regressado a Goa ingressou na Congregação do Oratório, fundada em Roma por São Felipe Néri. O Oratório de Goa foi a primeira congregação religiosa totalmente asiática e veio a ter um decisivo papel na cristianização do Ceilão, pois foram os seus membros que durante cerca de cem anos missionaram naquela ilha, num período em que os europeus estavam impossibilitados de fazê-lo. Disfarçado de mendigo, o Padre José Vaz conseguiu penetrar no Ceilão e instalar-se na região de Jaffna em 1687. Tinha então 12 anos de experiência missionária e conhecia as línguas locais, nomeadamente o tamil. Com a sua coragem, a sua exemplar acção e o seu exemplo recuperou o sentimento católico que se estava a perder e promoveu muitas conversões. As perseguições aos católicos continuavam e o Padre José Vaz entendeu que a sua presença era um risco de vida permanente para si, para a sua causa e para a sua comunidade católica, pelo que decidiu afastar-se das “terras dos holandeses” e dirigir-se para o reino de Kandy, no interior da ilha, para continuar a sua missão. Porém, foi acusado de ser um espião português e foi preso. Só ao fim de 2 anos o rei de Kandy se convenceu da inocência do missionário e o libertou, autorizando-o além disso a construir uma igreja na capital.
O Padre José Vaz morreu no dia 16 de Janeiro de 1711, estimando-se que então houvesse 55 mil católicos no Ceilão. Sancoale, a sua terra natal, tal como a generalidade da comunidade católica goesa, venera-o e recorda-o nesse dia 16 de Janeiro nas generalidade das paróquias de Goa mas, sobretudo, no Santuário de Sancoale.

A casa onde nasceu o Padre José Vaz e o Santuário em que é venerado em Sancoale

Actualmente o Sri Lanka tem cerca de um milhão e meio de católicos, correspondentes a cerca de 6.75% da população do país e tem 11 dioceses, havendo diversas comunidades burghers (descendentes de europeus), cujas práticas culturais e cujo dialecto crioulo têm fortes traços portugueses e goeses, como se observa, por exemplo, na comunidade burgher de Batticaloa, com a qual eu próprio tive oportunidade de conviver em 1999.

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