Postal de Goa (XX)
A língua é um dos traços mais fortes da herança cultural portuguesa em Goa, mas continua em acentuada regressão desde 1961, embora haja alguns esforços isolados e meritórios de uns tantos teimosos, mas que são insuficientes perante a real indiferença dos nossos dirigentes.Apesar de uma presença que perdurou durante 451 anos, a língua portuguesa nunca se impôs verdadeiramente em Goa. Sendo a língua oficial do Estado da Índia, era utilizada apenas nos meios urbanos, nas escolas, nas repartições públicas e no convívio social, pelos poucos portugueses que viviam em Goa, pelos luso-descendentes e pelas camadas superiores da sociedade goesa, tanto católica como hindu. Segundo as estatísticas oficiais, em 1961 só cerca de 8.000 pessoas (cerca de 1.5% da população) tinham o português como língua-mãe e, segundo um inquérito realizado em 1973, esse número baixara para 2.800 pessoas. De facto, depois de 1961, com a saída dos funcionários portugueses, de muitos luso-descendentes e de uma parte da população goesa mais letrada, em conjugação com os novos factores políticos e alguma hostilização à língua portuguesa, esta tendeu a cair em desuso. Esse facto não resultou de uma política oficial explícita, mas também do desejo de aprender o inglês como forma de integração no novo espaço nacional e como língua para o futuro, quer na Índia quer no mundo.
O Boletim Oficial e as instituições educativas de Goa ainda continuaram a utilizar o português até 1967 mas, progressivamente, o inglês, o konkani, o marathi ou o hindi substituíram definitivamente o português como língua de uso corrente. Dos 5 jornais diários que em 1961 se publicavam em português, O Heraldo foi o mais resistente, mas em 1983 deixou cair os “o”, passou simplesmente a ser Herald e adoptou em definitivo o inglês.
Em 1961 o português era obrigatório para 29.940 estudantes do ensino secundário, mas em 1980 havia apenas 100 estudantes de português no ensino secundário, por iniciativa e até corajosa opção dos seus tutores, que não abdicaram dessa escolha para que os seus filhos pudessem falar em casa com os pais e com os avós em português.
Alguns anos depois, o ambiente político-social estava mais normalizado e, no ano escolar de 1984-85, já havia 422 estudantes em 15 escolas secundárias de Goa que tinham optado pela aprendizagem do português, enquanto no ano lectivo de 2008-2009 esse número já se elevara para 667 estudantes.
Significa que o número de jovens goeses que escolhem o português como língua de opção tem vindo a aumentar, apesar de haver uma evidente falta de professores qualificados para responder à procura, situação que se irá agravar muito rapidamente.
Apesar destes animadores sinais, a língua portuguesa continua em regressão e não deixa de ser curioso que muitas vozes goesas se levantem em sua defesa por motivos sentimentais, culturais, familiares, práticos ou, ainda, pela crescente convicção de que a língua portuguesa não é apenas a língua dos portugueses, mas o idioma de um espaço muito mais vasto que é hoje a Lusofonia.
Talvez por isso, é visível alguma retoma do interesse pela língua portuguesa por parte das gerações mais jovens, inclusive pelo estatuto social elevado que confere, devendo ser salientado o envolvimento que para esse resultado têm tido as acções e os incentivos da Fundação Oriente e do Instituto Camões, mas também de algumas instituições locais como a Indo-Portuguese Friendship Society. Actualmente, nas escolas secundárias de Goa, há 727 estudantes que escolheram o português como língua optativa, sendo os seus professores remunerados pela Fundação Oriente.
Para esta atitude de renovado interesse pela língua portuguesa também tem contribuído a oferta turística goesa, que aposta numa diferenciação em relação ao resto da Índia, visível na ainda forte influência portuguesa e no seu colorido mediterrânico, pelo que muita da toponímia portuguesa foi mantida ou tem sido recuperada, quase se tornando uma moda.
Estima-se que entre 10 a 20 mil goeses falem português em Goa, muitos deles regressados de Moçambique depois de 1975. Este número confirma uma evidência para qualquer pessoa que tenha estado em Goa e em Macau nos anos mais recentes: em finais do século XX havia muito mais gente a falar português em Goa do que no território de Macau, quando nele ainda flutuava a bandeira portuguesa.
Porém, é necessário fazer algo mais para que a língua portuguesa não desapareça em Goa.








