quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Padre António Vieira

Nasceu há quatrocentos anos, em Lisboa. Camilo dizia que os seus sermões eram "riquíssimos minérios do mais fino ouro pelo que respeita à linguagem" e Fernando Pessoa chamou-lhe o imperador da língua portuguesa. Lutou contra a escravatura no Brasil e, em Portugal, contra a poderosa Inquisição que o proibiu de pregar. Leiam um pequeno e bem actual excerto do seu "Sermão de Santo António aos Peixes", pregado na cidade de São Luís do Maranhão em 1654:
"A diferença que há entre o pão e os outros comeres, é que para a carne há dias de carne, e para o peixe dias de peixe, e para as frutas diferentes meses no ano; porém o pão é comer de todos os dias, que sempre e continuadamente se come: e isto é o que padecem os pequenos. São o pão quotidiano dos grandes; e assim como o pão se come com tudo, assim com tudo e em tudo são comidos os miseráveis pequenos, não tendo nem fazendo ofício em que os não carreguem, em que os não multem, em que os não defraudem, em que os não comam, traguem e devorem… Parece-vos bem isto, peixes? Representa-se-me que com o movimento das cabeças estais todos dizendo que não, e com olhardes uns para os outros, vos estais admirando e pasmando de que entre os homens haja tal injustiça e maldade! Pois isto mesmo é o que vós fazeis. Os maiores comeis os pequenos; e os muito grandes não só os comem um por um, senão os cardumes inteiros, e isto continuamente sem diferença de tempos, não só de dia, senão também de noite, às claras e às escuras, como também fazem os homens."

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