Conferências na Fundação Calouste Gulbenkian.
Não consegui resistir a transcrever o resumo da conferência. Outro abraço!
AQUECIMENTO GLOBAL: A CAMINHO DA AUTODESTRUIÇÃO OU DA ENGENHARIA CLIMÁTICA PLANETÁRIA
RICARDO AGUIAR
As alterações climáticas provocadas pela Humanidade já não se limitam a fenómenos locais ou regionais como o smog e as chuvas ácidas. Alcançam agora todo o Planeta: redução da camada de ozono estratosférica, aquecimento global, acidificação dos oceanos. Isto parece provar a nossa ignorância e irresponsabilidade face aos complexos equilíbrios ambientais, o que acabará por conduzir à catástrofe esta nossa sociedade global que tem vindo a ser desenhada desde o Renascimento. Parece que as mudanças ambientais já várias vezes tiveram esse efeito na História, desde a Mesopotâmia à Civilização Maia.
Se a degradação da camada de ozono com radiação UV mais intensa se manifesta especialmente em zonas circumpolares ainda bastante remotas, já o aquecimento global atinge a maior parte da população. No Mundo e em Portugal os impactos do aquecimento ainda modesto registado no século XX já são visíveis. Guerras como as do Darfur ou mesmo da Palestina podem ser interpretadas já como guerras ambientais. Ora os impactos que se avizinham são muito maiores – e em parte substancial inevitáveis. Por um lado porque não é possível alterar bruscamente a maneira como a Humanidade usa a energia e os recursos naturais, de maneira a cessar rapidamente a emissão de gases com efeito de estufa. E, por outro lado, porque mesmo que isso fosse exequível já não reconduziria à situação anterior à Revolução Industrial, devido à existência de grandes inércias e à perturbação entretanto já introduzida nos sensíveis equilíbrios dos reservatórios de carbono na Biosfera, Atmosfera e Hidrosfera.
Contudo, outras civilizações da História conseguiram mudar e assim ultrapassar crises ambientais, como o povo Chumash da Califórnia. A nossa própria sociedade já mostrou alguma eficácia, ao conseguir conter e, cremos, reverter a degradação da camada de ozono. Podemos ver isso como um primeiro êxito de engenharia climática planetária. O aquecimento global é um desafio mais sério, pois envolve mais actores, toca em controversas questões de equidade internacional e exige uma mais aguda consciência da responsabilidade de cada geração com as seguintes. Em todo o caso as abordagens de ataque ao problema concorrem com outros objectivos identificados como necessários à sustentabilidade, desde a conservação da biodiversidade à segurança do abastecimento energético, da redução da poluição ao desenvolvimento humano justo. Melhoria de comportamentos, de regulamentos e de tecnologia formam um triângulo virtuoso que permite ter esperança no sucesso.
Estamos realmente nas fronteiras da Ciência quando para fundamentar e tornar operacional no concreto a mitigação das alterações climáticas necessitamos perspectivar o que irá suceder – através da prospectiva quantitativa, que recorre à complexa modelação de milhares de aspectos do futuro, do Clima à Sociedade e à Tecnologia. E é mesmo tentar ultrapassar os limites ao considerar que algumas das ambiciosas soluções técnicas que vamos adoptar, como o sequestro de carbono em formações geológicas, poderão um dia servir-nos para estabilizar o Clima face às flutuações cíclicas da actividade solar e às variações astronómicas lentas da órbita da Terra. Ou mesmo ensinar-nos algo sobre como “terraformar” a atmosfera dos planetas Marte e Vénus!
18 de Junho de 2008
RICARDO AGUIAR
As alterações climáticas provocadas pela Humanidade já não se limitam a fenómenos locais ou regionais como o smog e as chuvas ácidas. Alcançam agora todo o Planeta: redução da camada de ozono estratosférica, aquecimento global, acidificação dos oceanos. Isto parece provar a nossa ignorância e irresponsabilidade face aos complexos equilíbrios ambientais, o que acabará por conduzir à catástrofe esta nossa sociedade global que tem vindo a ser desenhada desde o Renascimento. Parece que as mudanças ambientais já várias vezes tiveram esse efeito na História, desde a Mesopotâmia à Civilização Maia.
Se a degradação da camada de ozono com radiação UV mais intensa se manifesta especialmente em zonas circumpolares ainda bastante remotas, já o aquecimento global atinge a maior parte da população. No Mundo e em Portugal os impactos do aquecimento ainda modesto registado no século XX já são visíveis. Guerras como as do Darfur ou mesmo da Palestina podem ser interpretadas já como guerras ambientais. Ora os impactos que se avizinham são muito maiores – e em parte substancial inevitáveis. Por um lado porque não é possível alterar bruscamente a maneira como a Humanidade usa a energia e os recursos naturais, de maneira a cessar rapidamente a emissão de gases com efeito de estufa. E, por outro lado, porque mesmo que isso fosse exequível já não reconduziria à situação anterior à Revolução Industrial, devido à existência de grandes inércias e à perturbação entretanto já introduzida nos sensíveis equilíbrios dos reservatórios de carbono na Biosfera, Atmosfera e Hidrosfera.
Contudo, outras civilizações da História conseguiram mudar e assim ultrapassar crises ambientais, como o povo Chumash da Califórnia. A nossa própria sociedade já mostrou alguma eficácia, ao conseguir conter e, cremos, reverter a degradação da camada de ozono. Podemos ver isso como um primeiro êxito de engenharia climática planetária. O aquecimento global é um desafio mais sério, pois envolve mais actores, toca em controversas questões de equidade internacional e exige uma mais aguda consciência da responsabilidade de cada geração com as seguintes. Em todo o caso as abordagens de ataque ao problema concorrem com outros objectivos identificados como necessários à sustentabilidade, desde a conservação da biodiversidade à segurança do abastecimento energético, da redução da poluição ao desenvolvimento humano justo. Melhoria de comportamentos, de regulamentos e de tecnologia formam um triângulo virtuoso que permite ter esperança no sucesso.
Estamos realmente nas fronteiras da Ciência quando para fundamentar e tornar operacional no concreto a mitigação das alterações climáticas necessitamos perspectivar o que irá suceder – através da prospectiva quantitativa, que recorre à complexa modelação de milhares de aspectos do futuro, do Clima à Sociedade e à Tecnologia. E é mesmo tentar ultrapassar os limites ao considerar que algumas das ambiciosas soluções técnicas que vamos adoptar, como o sequestro de carbono em formações geológicas, poderão um dia servir-nos para estabilizar o Clima face às flutuações cíclicas da actividade solar e às variações astronómicas lentas da órbita da Terra. Ou mesmo ensinar-nos algo sobre como “terraformar” a atmosfera dos planetas Marte e Vénus!
18 de Junho de 2008


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