segunda-feira, 25 de junho de 2007

C.R. Boxer

Depois da transcrição de alguns trechos do livro do almirante Napier que retratavam o estado da instituição militar e naval da época das lutas liberais, proponho-me recuar no tempo e fazer o mesmo na época da expansão do império lançando mão da obra do reputado historiador C.R. Boxer, O Império Marítimo Português. E começa já:

« O problema de tripulação da carreira da India foi quase sempre um problema difícil (...). Já em 1505, estavam a ser recrutadas para servir na carreira tripulações completas inexperientes, como exemplifica a anedota contada pelo cronista Castanheda acerca dos marinheiros rústicos de João Homem. Esses campónios não sabiam distinguir bombordo e estibordo ao largarem do Tejo, e só o conseguiram quando foi atada uma réstea de cebolas num dos lados do navio e uma réstea de alhos noutro. « Agora - disse ele ao piloto - diz-lhes que virem o leme na direcção das cebolas ou na direcção dos alhos e eles depressa compreederão.» Este pode ter sido um caso extremo mas, ao longo de três séculos da carreira, abundaram as queixas de que alfaiates, sapateiros, criados, camponeses e «moços bisonhos» eram aceites como marinheiros competentes, apesar das repetidas regulamentações que foram feitas para impedir este abuso. Em 1524, um informador em Cochim relatou à coroa que havia apenas 300 marinheiros portugueses em toda a India, «incluindo os doentes e os sãos». Diogo de Couto observou que em 1558 havia apenas 400 disponíveis em Goa mas este era um número excepcional. A escassez de marinheiros acentuou-se durante o período da união das duas coroas ibéricas, de 1580 a 1640, quando muitos marinheiros portugueses preferiam prestar serviço na marinha espanhola a fazê-lo na nacional, porquanto na primeira eram ligeiramente mais bem pagos e os reis castelhanos se achavam inclinados a encorajar esta tendência. (...)
Tem-se pretendido que seis meses de viagem de Lisboa a Goa davam a marinheiros tão improvisados como os de 1505 tempo suficiente para se tornarem autênticos lobos do mar. É certo que isso aconteceu com alguns deles mas o mesmo não se passou com muitos outros, como narra Martim Afonso de Sousa, um dos mais experimentados capitães navais que Portugal jamais teve, que se queixou a um ministro da coroa em 1538. Uma carraca na carreira devia ser tripulada por cerca de 120 a 130 marinheiros, divididos igualmente por marinheiros competentes e grumetes. Estes últimos eram marinheiros aprendizes, não necessariamente rapazes, se bem que a maioria não ultrapassasse geralmente os dezanove anos. Faziam todo o trabalho mais duro a bordo, e dormiam no convés, no espaço situado entre o mastro principal e o traquete. Muitos deles nunca tinham entrado num barco até ao momento em que partiam de Lisboa para Goa, e Martim Afonso de Sousa observa acerca destes últimos:
"Não deixem que ninguém lhes diga que quando eles chegam a bordo são já marinheiros. Esta é a maior das mentiras do mundo, porquanto são vagabundos que nunca andaram no mar; e, para que alguém seja marinheiro é preciso que tenha servido muitos anos como grumete.E asseguro-lhes que esses são os que desertam aqui e se juntam aos muçulmanos... porque não têm qualquer sentido do dever, e, assim que lhes falta um tostão do seu ordenado vão-se embora".

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