quinta-feira, 14 de junho de 2007

Almirante Charles Napier (5)

«Nenhuma marinha do mundo se pode comparar com a marinha portuguesa; eles arranjam os seus navios, para navegar, da maneira mais extraordinária que é possivel. Não há um só navio em toda a sua marinha, que não esteja em estado de ser condenado num estaleiro inglês. O seu pano é só próprio para o Verão; a maior parte do seu poleame é de pinho, e as pernas de pau, e constantemente anda caindo a pedaços, não há proporção entre a força das vergas e a esteira das velas; jamais tem um ferro ou uma amarra que segurem um navio debaixo de tempo num ancoradouro aberto, nem um cabrestante que possa suspender um ferro com temporal; e se abrem água, devem ir a pique por falta de bombas; e para coroar tudo, a maior parte dos seus oficiais não tem a menor pretensão à arte de marinhagem. Os mestres, contra-mestres, que são sempre homens respeitáveis, são as únicas pessoas, com figura de oficiais, que são marinheiros; e na verdade sabem manobrar bem os seus navios; contudo, apesar de todas estas desvantagens atiram-se ao trabalho da maneira mais extraordinária. Não podem conservar-se no mar debaixo de mau tempo, nem tão pouco cuidam disso, e se por acaso lhes cabe um vento frescalhão, as velas com toda a certeza rasgam-se e vão pelos ares, e não lhes resta senão toda a confiança na providência.»

Nota do tradutor (contemporâneo):
E como não havia de acontecer assim se todo o fornecimento que entrava para o arsenal era sempre da pior qualidade? (...) Falamos por experiência própria: o que os fornecedores compravam para ali introduzir quase sempre lonas de 3ª sorte, fraquíssima para resistir a um golpe de vento rijo, e por conseguinte incapazes de que um oficial se pudesse fiar no pano. Que diremos do linho? Esse era sempre de 3ª sorte, às vezes com alguma estopa e seu bocado de avaria. Daí vem que os cabos a bordo de uma embarcação de guerra portuguesa são sempre mais sobranceiros e de maior bitola do que deviam ser, para lhes dar a força e consistência necessária. (...) Um ovém da enxárcia de uma nau portuguesa pode muito bem, pela sua bitola, servir de amarra para qualquer navio, e isto em consequência da má qualidade do linho com que são fabricados.

3 comentários:

O Nunes da Cruz disse...

A dominação filipina explica muito da nossa decadência naval, mas termos chegado a isto, dá que pensar.
Deprimente...

O M.Sá disse...

Não sei porquê mas eu já suspeitava de qualquer coisa...e será que os factos apontados se restringiriam à marinha?

O FdaPonte disse...

Para responder ao Cruz não foi só a ocupação filipina. O mal já vem organicamente desde D. Manuel que inverteu em 180 graus toda uma reforma sociológica, económica e política iniciada e programada por D. João II, o ultimo rei de Portugal. A partir dele tudo será fumaça, aparências e provincianismo clerical.